sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Considerações sobre:
Paraguai e Uruguai de 1870 a 1930

Paraguai e Uruguai são dois países da região platina marcados por diversos conflitos. Tanto no campo político-partidário quanto cívico entre outros. Estes sofreriam entre o final do século XIX e início do século XX diversas transformações. Desde o conflito bélico da Guerra do Paraguai e suas conseqüências, a intromissão brasileira e argentina em assuntos internos, períodos de estabilidade político, relativo crescimento econômico, dependência do capital estrangeiro até os reflexos da Primeira Guerra Mundial e a Grande Depressão.

As disputas por supremacia – Brasil e Argentina – na região impactaram diretamente nos respectivos países. O império brasileiro, consideravelmente estável após o fim das revoltas internas, vislumbra aumentar sua influência. Inclusive por intervenções. Feito a ofensiva contra Oribe e Rosas. A Argentina, liderada por Juan Manuel Rosas, se colocava, também, com intentos intervencionistas. Manuel Oribe, ministro da guerra Uruguai, pretendia a manutenção de um aliado no governo para consolidar a supremacia argentina na região do Prata. Tais ações desaqueciam os anseios brasileiros. O Brasil se aliou aos opositores nos dois países para derrubar o ditador argentino em 1852.


Após a matança sem precedentes da Guerra da Tríplice Aliança os aliados Brasil e Argentina retomariam certas rivalidades. A mais prejudicada, a República paraguaia, jamais se recuperaria do desastre militar de decorrências catastróficas: sua população masculina foi praticamente dizimada e metade de seus habitantes mortos (de 221 mil sobreviventes apenas 28 mil eram homens), ainda a ocupação aliada, intromissão estrangeira, cofres vazios e economicamente arrasada. A destruição da economia foi de tal manta que o país apenas recebeu de forma matizada o impacto que teve na consolidação das economias agroexportadoras da Argentina e do Uruguai, a introdução de fatores produtivos como a imigração européia e os capitais estrangeiros.

Quanto ao Uruguai tradicional, caracterizado dentre outros aspectos pelo comércio de gado e pelo caudilhismo possuía transportes mais ágeis, favorecido pela mobilidade de sua principal mercadoria (gado), pelo uso de barcos a vela e a vapor no rio Uruguai (beneficiou a comunicação com a capital). Era extremamente dependente do comércio e com poucas desigualdades e tensões sociais. “Ao contrário, sob alguns aspectos [...] destacava-se numa América Latina caracterizada no século XIX por classes sociais fortemente diferenciadas”. Mas, por outro lado, a luta civil também era endêmica. Coberto por disputas dos partidos Colorados e Blancos. Ao mesmo tempo, tal qual o Paraguai sofrera com a intromissão do Brasil e Argentina na política interna. Parceiros na guerra da Tríplice Aliança. Conflito que favoreceu alguns comerciantes, muitos estrangeiros. Para o Uruguai as repercussões da guerra foram menores, apesar de a situação nesse país ter sido o elemento catalisador das contrações que levaram ao conflito .

Nessa perspectiva ainda, no Paraguai do pós-guerra a nova Constituição promulgada deveria inviabilizar qualquer forma de ditadura. Porém, perenes articulações implicariam graves tensões; como o assassinato do governo Juan Batista Gill em 1877 e a tomada do poder pelo general Caballero. Vale ressaltar, nos dois países o elemento decisivo encontrava-se no Exército. Da mesma forma, a manutenção colorada uruguaia contava com respaldo militar. No Paraguai, o partido também conhecido como colorado se manteria ininterruptamente no poder de 1880 a 1904. Com o golpe militar a estabilidade política seria dissolvida e os acentuados problemas sociais do povo seriam margeados.

A oposição paraguaia formou-se, primeiramente, como partido oficial com a Associação Republicana Nacional. Contrários ao governo Caballero e seu partido colorado (contrário ao centro Democrático, tido como partido Azul). Embora houvesse um contraste político partidário essas correntes possuíam muitos interesses em comum. Ao Uruguai o advento da oposição foi acompanhado por fortes coerções. O aparecimento de uma frente oposicionista composta das facções ‘legalistas’ dos blancos e colorados provocou uma reação autoritária do general Máximo Santos levando-o a uma demasiada repressão. A imposição do governo militar, no qual Santos era o segundo a exercer o poder, afastou também os principistas, grupo que se separava dos partidos tradicionais, constituído basicamente por jovens intelectuais, provenientes de famílias antigas, já não mais tão ricas como dantes. “Guiados por um liberalismo doutrinário extremado [...] defendiam ardorosamente um ordem legal baseada em idéias e modelos europeus na qual eram fundamentais a desconfiança do Estado e uma crença arraigada nos direitos do indivíduo.” Entretanto, com Santos o militarismo não conseguiria sobreviver a prosperidade que o mesmo contribui para fomento da modernização do país.

No Paraguai o presidente civil Juan Gualberto Gonzales cai (1894) traído pelo exército para subida de Juan Bautista Egusquiza. Este último tentara conciliações entre os moderados dos respectivos partidos. Mas, tal como outros, passaria por crises sucessórias devido ao desenho da constituição (não permitia reeleição) e outros. Nos anos 1904 a 1923 o liberalismo e a anarquia protagonizaram. Antigas brigas, nunca totalmente solucionadas reacendiam, com políticas de abstencionismo por parte dos colorados. Sempre com cortejos ao Exército. Em contraste o Uruguai tentava amenizar seus transtornos com a política de co-participação.

O batlismo, contributo à consolidação democrática, dominava a vida política uruguaia no período. José Batlle y Ordónez, desde sua primeira eleição em 1903 até sua morte em 1929, controlou a política no Uruguai. Sendo um personagem relevante para modernização do país por meio de suas reformas. Além de atuar de modo avesso aos regimes trabalhistas autocráticos da época, ao apoiar as reivindicações da classe média e trabalhista. Trouxe uma pacificação incontestável, apesar das insatisfações blancas. Os membros da elite dirigente, conhecidos como batlistas, “eram orientados por uma ideologia de cunho reformista e modernizador forjada nos últimos trinta anos do século XIX nas salas de aulas do Ateneu de Montevideu e nos círculos jornalísticos da capital uruguaia” . Ao mesmo tempo, os batlistas não estiveram isentos de revoltas.

Novas e velhas abstinências seguiam-se no Paraguai. Manuel Gondra, dos radicais, assumiu o poder por um breve momento, até novo golpe derrubá-lo, envolvendo em desordem o país. Quando as eleições foram realizadas em 1910 os colorados e cívicos se abstiveram, de tal modo que os radicais elegeram seu candidato, sem oposição. “A primeira administração de Gondra tinha apenas dois meses quando de repente o coronel Jara se insurgiu e afastou-se do cargo. O golpe desencadeou um dos períodos de anarquia na história do Paraguai. Era questão de tempo a derrubada de Jara.” Desta vez o general chefe do exército tão importante em outrora seria desconexo da cena política. Em julho, um segundo levante, chefiado por uma coligação de cívicos e colorados, impetraria afastá-lo do poder.

Liberato Rojas e Eduardo Scharer adotaram posturas diferentes de seus antecessores. Foi um período de relativa estabilidade. De benefícios pela demanda da Primeira Guerra Mundial. Com novas eleições viria a figura de Franco (1916) que efetuou reformas relevantes de caráter eleitoral. Sua morte súbita levaria também os “bons tempos”. Sopravam novamente os ventos fortes de intrigas políticas, tramóias, renúncias, esquemas e exílios. De mesmo modo, a economia uruguaia cresceu com a demanda da Grande Guerra. Favorecendo a modernização do país (período de forte migração estrangeira, fato que por muito a via cessado). Tal crescimento se dava principalmente pela indústria frigorífica, o capital estrangeiro e a pecuária. Mesmo com certa “industrialização” no período as economias platinas permaneceram agrárias. A estrutura fundiária não modificou, uma vez que se manteve a propriedade latifundiária.

A Primeira Guerra e a crise financeira de 1929 repercutiram diretamente nas economias dos países latino-americanos. Inclusive debruçaram-se sobre fatos inéditos: a dificuldade de importação de produtos europeus e estadunidense e o dever de nutrir o mercado interno. Muitos se beneficiaram com a necessidade de abastecimento da Europa no período. Já com a crise foi preciso incentivar o processo de fabricação de bens de consumo. A crise de 1929 lançou as economias latino-americanas ao colapso. O volume do comércio internacional diminuiria fortemente, os investimentos estrangeiros faltos, as importações dos mais variados produtos dificultadas. Essa conjuntura acumularia falências, desemprego e reduções salariais.

Revoluções e ditaduras estabeleceram-se em um contexto de persistência de uma economia agroexportadora majoritariamente dependente da área central do capitalismo. A questão social permanecia problemática no Uruguai e Paraguai. No entanto esse último tivera que lidar ainda com intrigas diplomáticas e o tratamento da Guerra do Chaco (1923-1932). Gondrista de ponta, Eusebio Ayala, eleito interinamente tinha problemas –feito a condição de miséria da população, a ameaça externa vizinha e a permanente questão agrária. Foi importante no processo das eleições, inclinado à realização seguinte a seu mandato de uma disputa presidencial inédita no país. Outros problemas tinham o Uruguai, reformas limitadas, a questão da co-participação, exigências e propostas trabalhistas cada vez mais intensas.

Nas Américas, na óptica de Hobsbawm, as instituições políticas adequadamente democráticas no período entreguerras a situação seria mais confusa, mas não chegava a sugerir um avanço geral das instituições democráticas. A lista de Estados consistentemente e não autoritários no hemisfério ocidental era curta: Canadá, Colômbia, Costa Rica, os EUA e a hoje esquecida “Suiça da América Latina”, o Uruguai. Conhecido como suíça “sul-americana” devido sua estabilidade política e outros aspectos se comparada aos americanos do sul. Já O Paraguai acostumado a golpes, disputaria a região do Chaco com a Bolívia. Seus governantes foram atormentados pela quebra do orgulho paraguaio com a humilhação proveniente de um tratado com os bolivianos. A tensão não cessa, a guerra chega dopada de sangue. Mas, inacreditavelmente , o Paraguai venceria desta vez. Locais, regionais ou globais, as guerras do século XX iriam dar se numa escala muito mais vasta que qualquer coisa experimentada antes. Uma das que mais vitimou foi a Guerra do Chaco 1932-5; estando inserida na era do massacre inaugurada em 1914.

Para o cientista político francês Olivier Dabène as razões que estimularam estes países isolados e pobres ao conflito bélico residem principalmente em uma ordem histórica e econômica . Sob sua perspectiva, Paraguai e Bolívia abrigavam um sentimento nacionalista herdado das derrotas nas guerras. A guerra da Tríplice Aliança (1864-1870) foi desastrosa para o Paraguai e a guerra do Pacífico (1879-1886), por outro lado, fez com que a Bolívia perdesse o acesso ao mar, cuja recuperação se converteu, durante muito tempo, numa obsessão. Somavam-se ainda as demarcações fronteiriças mal delimitadas na grande planície do Chaco (600.000 Km²).

Tal período, 1870 e 1930, tangencia tempos de relativa prosperidade material, certa estabilidade uruguaia e quase sempre instabilidade paraguaia no campo político. As disputas hegemônicas paraguaias postas em jogo, mesmo entre partidários distintos nutria-se de ambições semelhantes. Em tese sua Constituição deveria privar formas ditatoriais, mas copiosos golpes foram deferidos. Mesmo Ayala, vitorioso na guerra contra a Bolívia sofreria um golpe em 1936, sob liderança do general Rafael Franco. Nem os “bons tempos” modificariam os quadros de pauperismo e a estrutura fundiária, mantinham-se os latifundiários. Acerca da Guerra do Chaco “ambos [Paraguai e Bolívia] os países saiam da guerra extremamente debilitados e sob ditaduras empenhadas em reconstruir a vida política nacional e em responder pela força à mobilização social, que, como nos demais países significava uma ameaça.” Por outro lado a década de 30 começa com ondas de medidas reformistas no Uruguai. Com intervenções de Estado no mercado de gado, a intensificação dos anseios por salário mínimo, pensões e direitos trabalhistas. Todavia, acordos oportunistas não mais dariam cabo diante de grupos sociais e políticos antagônicos. Tensões políticas se acirraram favorecidas pelas repercussões internas de 1929 (o Paraguai teve os efeitos da depressão limitados posto que sua população era amplamente camponesa) que acentuou a dependência dos estadunidenses. O golpe não tardaria, iniciando em 1933 a denominada Dictadura de Gabriel Terra. Todavia, permaneceriam os colorados no poder até 1973.

Fernando Teixeira


Bibliográfia:
DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra: Nova história da Guerra do Paraguai/ São Paulo: Companhia das Letras, 2002
ODDONE, Juan A. “A Formação do Uruguai Moderno”. In História da América Latina: de 1870 a 1930, volume V/ org. Leslie Bethell. Trad. Geraldo Gerson de Souza – I Ed, I reimpr. – São Paulo: Edusp; Brasília, 2008
DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra: Nova história da Guerra do Paraguai/ São Paulo: Companhia das Letras, 2002
SOUZA, Marcos Alves de. A cultura política do “batlismo” no Uruguai: 1903-1958/ São Paulo: Fapesp, 2003.
LEWIS, Paul H. O Paraguai da Guerra da Tríplice Aliança a Guerra do Chaco. In: História da América Latina: de 1870 a 1930, volume V/ org. Leslie Bethell. Trad. Geraldo Gerson de Souza – I Ed, I reimpr. – São Paulo: Edusp; Brasília, 2008.
HOBSBAWM, Eric. Era do extremos: O breve século XX 1914-1991: trad. Marcos Santarrita/ São Paulo: Companhia das Letras, 1995
DABÈNE, Olivier. América Latina no século XX/ trad. Maria Izabel Mallmann. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003

domingo, 7 de agosto de 2011

Relatos de viagens
Imagens do período descobrimentista

Como que numa interdependência cumplicista, viagem e relato podem ser vislumbrados como duas faces de uma mesma realidade. Quantas viagens se efetivaram por fundar-se em relatos fantasiosos e elucubrações cientificas e literárias e quantos relatos surgiram fantasiosos e impositivos em eloquentes colocações, matizados de literatura e cientificidade, a partir de uma viagem? Viagem e relato estão tão intrinsecamente imbricados um no outro que é difícil dissociá-los. Toda viagem gera um relato, ainda que do viajante para ele próprio num exercício mental, num psico-relatar, que pode vir a ser socializado a terceiros ou não, e todo relato possibilita uma viagem, senão física com deslocamento no tempo e no espaço, pelo menos num exercício mental que transpõem o leitor de sua situação no tempo e no espaço, para o contexto do relato.


“O que não é uma viagem? Por menos que se dê um sentido figurado a esse termo - e jamais pudemos deixar de fazê-lo – a viagem coincide com a vida, nem mais nem menos: o que é esta, além de uma passagem do nascimento à morte? O deslocamento no espaço é o indicio primeiro do mais óbvio, da mudança; ora, quem diz vida diz mudança. O relato também se alimenta da mudança: nesse sentido, viagem e relato implicam-se mutuamente. A viagem no espaço simboliza a passagem do tempo, o deslocamento físico o faz para a mudança interior: tudo é viagem, mas trata-se de um tudo sem identidade. A viagem transcende todas as categorias, incluindo a da mudança, do mesmo e do outro, pois desde a mais remota antiguidade são acumuladas viagens de descobrimento, explorações do desconhecido, e viagens de regresso, reaproximação do familiar: os argonautas são grandes viajantes, mas Ulisses também o é.Os relatos de viagens são tão antigos quanto as viagens ou mais. A primeira grande vaga de viagens modernas é a do fim do século XV e do século XVI: ora naquele momento, e por mais que isso se pareça paradoxal, os relatos precedem as viagens. Desde a alta Idade Média, relatos mais ou menos fantasistas gozam da simpatia do povo e mantem acesa a sua curiosidade.”.


Imagens do período descobrimentista um retrato da expanção ultramarina
As navegações que se faziam antes do domínio dos mares pelos europeus eram rudimentares e se fundavam no arrimar, sem nunca perder de vistas a terra firme, sob pena de sucumbir aos perigos dos oceanos. As viagens ultramarinas, que tem seus primórdioscronologicamente localizado,no final do século XV com o desenvolvimento das caravelas portuguesas, representaram uma grande mudança para a vida como um todo no continente europeu. A descoberta de novas terras e de novos povos foi motivo de fortuna para as nações empreendedoras dessas viagens, bem como de uma série de novas informações acerca de outros costumes e outras culturas bem diferentes dos da Europa.

As informações acerca dessas descobertas chegavam a Europa por meio de uma série de relatos de viagem que os viajantes faziam durante as expedições descobrimentistas/achistas. Muitas especulações prenunciavam a existência de culturas, terras e povos distintos, que estavam além-mar. No entanto, somente após a conquista do oceano atlântico e o domínio do cabo das tormentas, os mares e oceanos foram desbravados pelos europeus que rompiam a linha do horizonte geográfico e mental de todo um continente (o continente europeu a priori e de todo o mundo conhecido progressivamente).

O mundo desconhecido com toda a sua diversidade mexia com o imaginário do individuo europeu (tanto do viajante, como do europeu comum em seu cotidiano) e despertava seu interesse por qualquer relato acerca desse assunto, o que acabou fazendo dos relatos de viagens um grande sucesso na Europa. Havia um grande número de pessoas interessadas nesses textos, a fim de tomar conhecimento do que havia de fato fora da Europa e, por esta razão, as impressões dos viajantes eram difundidas entre seus leitores. Vale lembrar que o público desses textos eram pessoas interessadas em diversos aspectos: militares, religiosos, econômicos, artísticos,botânicos, científicos, ou mesmo por simples curiosidade. No entanto esse públiconão se configurava um grande grupo, visto que era, em geral, um material pouco acessível aos menos favorecidos financeiramente o que reduzia drasticamente esse grupo.


O primeiro encontro - Oscar Pereira da Silva

De todo modo, ao longo dos anos, a quantidade de relatos produzidosiam aumentando consideravelmente, versando sobre diferentes partes do mundo e sobre os mais variados assuntos. O que a principio tinha como proposta apenas o descrever do que era visto, no sentido de mostrar ao leitor o que fosse mais próximo da verdade sobre as localidades e os povos abordados passou com o tempo e o sucesso dos relatos, a ser uma nova vertente literária fazendo o gosto dos letrados e dos artistas que se apropriavam dos relatos e se municiavam deles para compor seus próprios relatos e obras, criando misturas literárias e ícones imagéticos que tinham como objetivo vender a imagem do novo mundo com toda a sua carga de exotismo. Nesse interim, inúmeros relatos ganham um tom de aventura bastante acentuado, pois pode serdesinteressante ao leitor menos interessado ler apenas descrições de questões específicas. Sendo assim, não são poucos os textos que contêm descrições surpreendentemente imagéticas e que dão grande importância á subjetividade, estando carregados das impressões e reações do autor e daqueles que estavam a sua volta, cabe ressaltar que o mundo novo é de tal modo impactante sobre os viajantes que muito dos relatos expressam exatamente, o conflito do novo sobre uma estrutura mental vigente, estabelecida a partir do imaginário europeu.

A função primária e básica de um relato de viagem é tornar os acontecimentos ao longo de uma viagem, acessível de algum modo aos que dela não puderam fazer parte e mesmo aos próprios viajantes que correm o risco de acabar por perder, mais do que já é comum ao ser humano perder em face dos apagamentos que o cérebro faz automaticamente. Haja vista que as expedições feitas entre a era das caravelas duravam meses, submetidas às mais variadas intempéries (pestes, fome, motins, insubordinações, naufrágios, estagnações à deriva por falta de ventos, tempestades, entre outras). Sendo tão longa a duração das expedições, os relatos faziam-se indispensáveis, ainda que se excetuem todas as informações de ordem náuticas, científicas etc. que se ia levantando e catalogando, o seriam indispensáveis por razões burocráticas, para satisfação aos financiadores dessas viagens que queriam saber o quanto antes o resultado de seu investimento. Assim os relatos de viagens funcionavam como uma escrituração de todo o ocorrido ao longo do caminho percorrido, onde era comum descrever os fatos, os povos, os lugares, as intempéries e tudo mais que parecesse interessante. Nesse contexto cultural do período da expansão marítima descobrimentistao foco estava nos lugares visitados, considerados “estranhos” ou “exóticos”.

Por trás desse massivo interesse pelo novo mundoencontra-se a cobiça dos colonizadores em relação às possíveis riquezas dessas terras, ou mesmo a vontade de tomá-las para si mesmo queà base da força e das violências. De todo modo, são as descrições sobre os “nativos” as que mais farão sucesso entre os europeus leitores dos relatos de viagem. Desse modo temos nos relatos de viagem, um texto bastante marcado pelas impressões pessoais do autor, pelo olhar eurocêntrico sobre o outro, por análises científicas e por descrições muito detalhadas no que tange as questões de geografia e até mesmo aos vestuários.

Interessado nessas informações está um público leitor restrito, porém de grande relevância na época por conta de seu prestigiado posicionamento social, consome os relatos em larga escala onde a função do relato de viagem é uma das mais pertinentes: a de formar uma identidade e uma relação de alteridade com os povos chamados “selvagens”. Sendo assim, podemos deduzir que os relatos de viagem gozava de certo “status”, ede certo grau de confiabilidade, pois as ideias ali veiculadas passaram a integrar o imaginário dos europeus que, os liame reproduziam aos iletrados e analfabetos, completando o alcance dos relatos.

Livro das Armadas. séc. XVI

Contudo os relatos são fontes, rastros, reminiscências que sinalizam sobre o que foi o encontro do mundo europeu com esse, denominado “mundo novo”.Noentanto a partir da perspectiva do europeudesbravador, com toda a sua carga subjetiva, com certos nuances de legitimação do investimento, feito para com o investidor, destinatário primeiro dos relatos. Sendo assim, considerar o que relatam os viajantes autores,como verdades é umfeitoque se dá por conta dos leitores a partir de sua relação com o próprio relato. E cabe ao leitor atual, sobremaneira ao historiador que busca estabelecer contato com esses relatos, saber se reportar a tais documentos cientes que tem toda uma carga identitária, contextualizada nestes distantes séculos de história do ocidente, formatando as percepções e leituras dos narradores dos relatos. Não se pode esquecer de forma alguma, que essas foram, as primeiras informações que os europeus tiveram acerca deterras epovosnão-europeus (excetuando-se as terras e povos adjacentes dooriente conhecido), tudo o que se tinha antes eram previsões cientificas que vislumbravam outras terras e povos e especulações de cunho religioso.

A curiosidade dos leitores europeus é um fator que muito certamente influenciou e muito contribuiu para a construção de estereótipos que em nada tinha a ver coma realidade dos povos comentados nos relatos, mas antes respondiam aos construtos simbólicos que compunham o imaginário europeu da época,de todo modo, essas características, essas subjetividades intrínsecas aos relatos interferem na análise, em função do tempo e do espaço do discurso ora posto, desafiando a capacidade de perscrutar do leitor,a capacidade do leitor de sondar os relatos em busca das respostas que julgar serem-los estes capazes de fornecê-los.

As informações que os relatos nos legaram, mesmo sendo passíveis de tantas ressalvas como acima foi postulado, denotam quanto de nosso universo cosmovisual é ainda radicado em muitos estereótipos que foram forjados no imaginário humano, nos séculos das expansões ultramarítimas e que se perpetraram no tempo sendo herdadas pelos indivíduos coevos.

Dança dos Tapuias - Albert Eckhout
Relatos inaugurais como: a carta de Pero Vaz de Caminha, a certidão de Valentim, a relação do piloto anônimo desenharam concepções que vigem e regem (ainda que muitas delas no subconsciente) até os dias atuais.

Quando abordamos a indigenia americana, somos logo reportados à cordialidade e mansidão, à preguiça e inaptidão para o trabalho, ao canibalismo e bestialidade indígena, como se estes fossem denominadores inquestionáveis da identidade indígena, o que não é, mas que, no entanto prevalecem no imaginário atual referenciandoas mais imediatas questões sobre o índio.

A escravidão dos negros da terra e a posteriori dos africanos trazidos para o continente é ainda hoje quesito de análises preconcebidas, culturalmente arraigadas nas práxis, que geram um preconceito velado e uma discriminação sutil, nos hábitos dos contemporâneos no Brasil. As prescrições medievais de comportamento sexual, eurocentralizadas/eurocentralizantes que matizaram os indígenas em sua cultura nativa de devassos, luxuriosos, descaídos seres abandonados pelo Deus do cristianismo, que legou aos europeus a boa nova da salvação e ao continente Ameríndio a perversão e a decadência máxima, reservando ao europeu o dever de submeter os bárbaros, selvagens ameríndios à catequese e à salvação cristã, mesmo sob pena de total destruição de si e de sua cultural.

Joaquim Teles - Kiko di Faria


Referencias Bibliográficas:

A BÌBLIA DE JERUSALÉM: nova edição, revista. 9. ed. São Paulo: Paulus, 2000.
ALENCASTRO, Luiz Felipe de. ‘Índios, os escravos da terra’. In O trato dos viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo, Companhia das Letras, 2006. pp. 117 - 154.
COSTA, Emília Viotti. ‘Primeiros Povoadores do Brasil: o problema dos degredados’. In: Textos de História, VOL VI,Nùmeros1& 2. Brasilia, UnB, 1998. pp. 77-100.
GINZBURG, Carlo. “Sinais: raízes de um paradigma indiciário” IN Mitos, emblemas, sinais: Morfologia e História. 1ª reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
Le voyage et son récit. In: TODOROV.T. lesmorales de l’histoire.Paris : Grasset. 1991.p.95-108. Tradução de Lea Mara ValeziEstauti In. Rev. Let. São Paulo, 39; 13-24. 1999.
PIERONI Geraldo. ‘No purgatório mas com o olhar no paraíso. O degredo inquisitorial para o Brasil Colônia’. In Textos de História, VOL VI, Números 1& 2. . Brasilia, UnB, 1998. pp.115-141.
RAMINELLI, Ronald. ‘ A natureza dos ameríndios’. Textos de História,VOLIII,Número 2. Brasília, UnB, 1995. pp.101-124.
RAMINELLI, Ronald. ‘ Eva Tupinambá’. In: PRIORI, Mary Del (org). História das mulheres no Brasil. São Paulo, Contexto / Unesp, 2001. pp.11 - 44.

sábado, 6 de agosto de 2011

Rede Social no Bomba - H

Agora temos o nosso twitter. Essa ferramenta, comum entre os internautas, é uma novidade para os leitores do Bomba – H. Embora pouco conhecido, por nós administradores do blog, devemos nos adaptar a essa “nova” rede social, pois trata-se de um micro-blog famoso e usual no mundo dos nets.











Não somos políticos, portanto não vamos prometer nada, mas muitas outras novidades ainda surgirão nesse semestre de 2011. Aderirmos o twitter para aumenta o número de internautas que poderão ter contato com este blog. Além dele também possuímos nossa comunidade no Orkut que até o momento, desta postagem, possui cinco membros... Devo admitir que não tenno dado tamanha importância para essas novas opções que a internet oferece, mas como diz o ditado: “nunca é tarde para começar.” Por isso vamos aproveitar esse começo de semestre para nos adaptarmos a essas redes sociais e oferecê-las aos nossos seguidores.

terça-feira, 12 de julho de 2011

A máfia verde e amarela


O Brasil é mundialmente conhecido como o país do futebol. Também somos conhecidos pela qualidade administrativa “duvidosa” de nossos representantes, ou para melhor dizer vivemos em um país que é governado pela corrupção. Conforme é de se perceber nessa reportagem da emissora Record, que dessa vez trouxe um conteúdo de qualidade, esses rótulos parecem se relacionar de formas intimas. Principalmente quando a investigação é feita em prol a denunciar os poderosos e chefões que insistem no interesse do próprio bolso.

O livro 10 Reportagens que abalaram a ditadura traz o seguinte trecho: “Jornalistas, alguns pelo menos, tem o saudável hábito de contar histórias que os poderosos de turno adorariam deixar nas sombras. Se os poderosos de turno detêm poder absoluto, então, fazem absolutamente de tudo para que tais histórias permaneçam indefinidamente longe das vistas do público.” Embora essa citação se refira a outro período da história brasileira, essa pode ser perfeitamente usada em alguns casos. Por exemplo, o presidente Ricardo Teixeira da CBF e a emissora rede Globo se encaixam perfeitamente nessa citação. Alguém ali é o poderoso de turno e outro não cumpre seu papel que seria o “funcionalismo” democrático da imprensa. Obvio que não somos inocentes. Sabemos que se existe dinheiro rolando existe interesses; vontades essas que algumas vezes são maquiadas pelo discurso de objetividade e imparcialidade, tudo isso a favor de nós brasileiros.

É uma graçinha assistir o apresentador Galvão enchendo a boca para dizer das exclusividades, das competências que sua emissora possui. Diante desse vídeo acima, surge a pergunta: como nós brasileiros, que temos como nossa principal emissora do país a TV Globo, ficamos?
“Sei lá, sei lá. A vida é uma grande ilusão
Sei lá, sei lá. Eu só sei que ela está com a razão”
Mas vamos deixar essa pergunta de lado, pois a questão central da reportagem passa a ser o poderoso chefão do futebol. O senhor Ricardo Teixeira foi denunciado pelo jornalista investigativo Andrew Jennings , autor do livro Jogo Sujo. O livro traz investigações que estremecerão as estruturas da FIFA, para Jennings o Brasil deveria aproveitar o momento para expulsar o presidente da CBF, em vista que já vivemos num momento democrático, portanto não deveríamos admitir que esse presidente, que está há anos no poder, continuasse sendo o dono do futebol brasileiro.

Definitivamente não podemos nos cegar para isso. O futebol é visto como a nossa paixão nacional. Quando estamos no contexto de uma Copa do Mundo nos sentimos unidos. Embora nem todos gostem desse esporte, a minoria, ainda sim ouvimos dizer de forma subjetiva que a nossa seleção brasileira é um patrimônio nacional. Diante de todas denuncias e do chefão no poder desse patrimônio, insisto na mesma pergunta: como nós ficamos?


Outra reportagem, mais detalhada, feita pela Record:
clique aqui

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Entrevista sobre pesquisa

Três professores frente a frente com o gravador. Nesta postagem, o Bomba – H tem a honra de trazer, para o seu conteúdo, uma entrevista feita por nós alunos aos professores: Álvaro Regiani, Juliano Pirajá e Marcelo Brito. Trata-se de uma entrevista sobre o tema pesquisa, ao longo dela o leitor poderá acompanhar respostas firmes, sérias e alguns momentos de humor.

Dessa forma o Bomba-H agradece aos professores, pois o blog ganha uma nova dimensão intelectual. Sem mais delongas, pois a entrevista é extensa deixo o leitor diante da postagem que talvez seja uma aula, em plena as férias, sobre o tema sobre-citado.


Qual a necessidade de preparar o aluno para lidar com a monografia ?

Juliano Pirajá: Em parte o curso é isso. O trabalho de monografia ele só vai ser bom se tiver uma boa escrita, boa orientação, boas fontes e dedicação. O curso é uma ferramenta, pois ninguém chega aqui na Universidade pronto, se deveria chegar com mais inquietações, mas tudo bem não está se chegando em nenhum lugar. Mais eu acho que o curso ele é o lugar por excelência.
Agora quanto às disciplinas, como se tem aproveitado esses conteúdos? O que está faltando nessas disciplinas? Eu sou muito critico em relação em como as coisas estão. Aula de Antiga, de Medieval, de Moderna eu acho que isso tem atrapalhado um pouco perseguir trabalhos melhores ao final do percurso. Essas repartições ainda segregam muitas possibilidades mais amplas de compreensão do objeto. Nisso eu acho que é uma falha, mas não é somente nossa do curso de História, mas como estamos falando do nosso curso então é uma falha nossa – da grade. Também acho que é muito difícil de mudar isso, as melhores universidades do país ainda estão prisioneiras dessa grade.
No mundo moderno, na velocidade em que as coisas se dinamizam, nas possibilidades de leitura que a gente tem no apertar de um clique, esses tipos de repartições têm prejudicado os bons trabalhos. Não tenho certeza, pois isso é uma opinião, mas o que penso é que se a gente tivesse uma formação mais plural, isso facilitaria bastante. Se tivessemos ainda mais possibilidades. Pensar, por exemplo, ao invés de História do Brasil, pensar aspectos, como a política brasileira em fim, outras divisões talvez dessa forma pudessemos ter melhores trabalhos.

Marcelo Brito: Não querendo fazer uma mea culpa para os professores, mas eu vejo que a figura do aluno em uma Universidade é central para a experiência do ensino e da pesquisa. Porque se até ali no ensino fundamental, no ensino médio a gente aceita um aluno que seja mais passivo ou puramente receptor do conhecimento, na Universidade é a hora que ele tem que se colocar como um sujeito na produção daquele conhecimento. Eu acho que a Universidade tem uma grande função social, mais importante até do que preparar um novo profissional para o mercado, que é auxiliar o aluno a se tornar um sujeito. E isso significa o quê? Eu acho que os alunos chegam do ensino médio ainda muito dentro dessa nossa cultura de massa, o que é natural. A função da Universidade é tirar esses acadêmicos dessa cultura de massa, mostrando que ela é relativa, que ela é uma construção, que podemos também produzir algo além dessa cultura de massa. Ao fazer isso, o aluno se torna um sujeito de fato. Recupera algumas reações genuínas, é capaz de relativizar a influência das demandas culturais sobre a personalidade. Quando um aluno torna-se um sujeito e consegue materializar esse processo de amadurecimento na pesquisa, os resultados são os melhores possíveis para a universidade e para a sociedade.

Álvaro: As vezes eu fico me perguntando: como é que as pessoas se acostumam sempre a produzir o mesmo? O Marcelo tocou no ponto que é essa produção em massa, que é a fabricação de sempre a mesma coisa. Diante disso então é que volta a culpa a ser colocada sobre os alunos. Pois tem que ser feitas novas perguntas, por isso que é necessário essa inquietação do aluno.


Como vocês vêem à pressão em produzir esse último trabalho acadêmico?

Marcelo Brito: Eu tenho acompanhado nesses dois últimos anos os trabalhos de conclusão de curso aqui na UEG, e vejo que a pressão pelo prazo é muito importante. Pois esse prazo gera uma pressão no aluno e ele acaba resolvendo os conflitos que surgem na realização da pesquisa, dessa forma chegando a algum lugar. Sem o prazo, a inércia acabaria vencendo. Eu torço para que o aluno chegue ao melhor lugar possível, que o aluno goste da experiência da pesquisa, que tenha prazer, e isso muitas vezes acontece. Essa pressão pela data, em que não há mais tempo a perder, isso portanto costuma ter um efeito persuasivo no sentindo de fazer o estudante chegar ao tema e realizar a pesquisa.

Juliano Pirajá: A pressão tem haver com o nosso fazer. É exigência nossa, pois a hora da monografia é a hora “H”. Eu também me pergunto sobre esses prazos, mas aqui pra nós, vocês têm um ano de preparação – projetando, pensando, falando só sobre isso e depois mais um ano com o acompanhamento de outro professor que vai cobrar outras coisas em cima disso. Então vocês têm dois anos de trabalho efetivo. Agora se é possível fazer uma monografia em dois anos? Dá pra fazer até duas, até três, quatro. O que é difícil nessa hora, em minha opinião, é que o aluno percebe que ali é ele quem avalia ele mesmo. As avaliações mudam, ele vai começar a "se sentir" quando for começar a escrever a primeira frase, no primeiro capítulo da sua boa idéia. Supondo ser um aluno que estudou, que trabalhou, na hora que ele sentar para fazer a monografia ele vai perceber na frente dele ele mesmo. Não mais uma pergunta, com o questionamento dirigido de um professor, não mais uma resenha e nem artigo com idéias subjetivamente impostas no processo de ensino-aprendizagem. Ele vai está frente a frente com o tema dele, com ele e com a maneira que ele vai querer dizer sobre aquilo. E ai meu amigo é onde a “porca torce o rabo.”
Quanto mais sério o pesquisador for mais doloroso é esse parto e isso é bom em certo sentindo. Não pode passar para os exageros, para as cobranças exageradas, sair rasgando tudo. Então eu acho que essa é a pressão mais difícil nessa hora, menos o prazo e mais o compromisso.



O que vocês diriam para àqueles acadêmicos que se encontram no inicio do quarto ano sem tema e sem inquietação?

Juliano Pirajá: Não existe tema que cai do céu. O que eu acho que acontece hoje em dia e que não deveria acontecer é que muitos chegam ao curso sem vontade de estar nele. Muitos se descobrem ao longo do curso e outros, na metade do curso, só querem os seus diplomas. Então para grande maioria desses que chegam ao quarto ano sem esse bichinho da inquietação, são os mesmos acadêmicos que se descobriram ao longo do curso e agora só querem concluir. Agora pode acontecer também de bons alunos – críticos, responsáveis – chegar ao último ano sem tema. Mas aí há uma diferença. Esse tipo de aluno que foi compromissado nos anos anteriores, ele chega com muitas idéias.
O que é engraçado é que a gente escuta nos corredores: “pô professor me empresta um livro ai para mim abrir meus horizontes.” E eu fico perguntando: “Livro de quê? De quem?” Eu acho que esse bichinho da inquietação ele não surge por acaso, ele depende da erudição, das leituras feitas durante o curso, das curiosidades. Então eu acho muito difícil para um aluno que tenha tido esses esforços que chegue ao quarto ano sem inquietação: ele chega com várias. Ao contrário, esses sem inquietação é um tristeza, mas a Universidade deve saber lidar com eles.

Marcelo Brito: Esse diagnóstico que o Juliano faz, reconhecendo dois tipos típicos de atitudes de alunos, é preciso. Realmente é isso que a gente percebe. Ao mesmo tempo em que chegam alunos transbordando idéias, o que num primeiro momento torna difícil chegar em um único tema, existem outros alunos que o curso parece que não fez tanto sentido, querem mais o diploma, tem aquela visão pragmática.


Álvaro: Ou o suicídio ou restabelecimento. Tirando os bons alunos como o Juliano citou tudo bem.
Eu acho que não deveria se formar tanto historiador, vejo como uma coisa muito supervalorizada e que realmente está faltando erudição. Você pergunta sobre os clássicos, ninguém leu, pergunta sobre historiografia brasileira, no qual a gente vive, ninguém leu. Mas ai os caras utilizam do velho jargão do culturalismo e do marxismo, lê algumas obras essenciais, mas não se aprofunda em nada. Então para esse tipo de pessoa: pegar um ônibus 06:30, almoçar meio dia, voltar pro trabalho, ligar a televisão e sonhar em consumir é a melhor coisa, mas esse lugar não é espaço da academia. Se a pessoa não se inquieta com as coisas sobre a vida ela pode pegar o ônibus todo o dia que não vai se incomodar. Mas na academia é o lugar para você se inquietar, perguntar sobre sua vida, se perguntar sobre seu presente, sobre seu passado, tentar projetar o futuro. Por isso eu acho que se você não tem uma inquietação no quarto ano ou no primeiro ano, suicídio é a melhor coisa. *O suicídio que eu falo não é a morte física é o suicídio acadêmico.


Qual o erro mais comum dos TCC’s em nossa Unidade?

Marcelo Brito: Nesses dois anos que estou à frente da disciplina Monografia II, percebi que existe uma séria dificuldade em relação ao momento da escrita da monografia. E esse é um problema grave. A escrita, na sua função mais básica, ela tem que se prestar como instrumento de comunicação pelo o qual o pesquisador transmite seus argumentos sobre o que foi encontrado na pesquisa. Já no sentindo mais amplo, a escrita é a própria narrativa histórica como parte do processo do conhecimento: na narrativa é que o sentido se constrói, por ela se relacionam as fontes, por ela se realiza o diálogo com os autores. Ou seja, o momento da narrativa histórica é fundamental na pesquisa e existe uma grande dificuldade em relação a esse momento na monografia em História. Na minha opinião, parte desse problema vem da nossa grade- horária: o curso oferece apenas uma disciplina de dois créditos que é Leitura e Produção de Textos, e isso é muito pouco para um curso que depende tanto da escrita.


Quais os temas que estão em falta e os temas que estejam na moda hoje para as pesquisas históricas?

Juliano Pirajá: Falta um trabalho, um clássico trabalho, sobre Getúlio Vargas, faz tempo que a gente não vê esse tipo de trabalho. Temas que eu acho que estão disponíveis, por exemplo, é a televisão menos ela em si, mais o produto que ela produz ou que ela produziu. Mas temos que entender que esse tema que estar “na moda” como aquilo que faz sentido hoje, que todo mundo está dialogando. Até porque não tem nada pior do que você está estudando o “umbigo de Adão” sozinho, é melhor você estudar um tema que tem dez pessoas estudando do que você estudar um tema em que o pesquisador está sozinho. E vejo também que falta um esforço no sentido de produção teórica, eu acho que a produção brasileira ainda está muito aquém do que pode produzir. Ainda vejo muita falta de audácia para dialogar teoricamente, escrever livros de teoria, pois são poucos os historiadores que escrevem sobre esse tema. Não sei se o mercado editorial evita publicar, que se diz respeito somente a historiadores, em contra partida a gente vê outros temas de história, percebe que o nosso passado tem sido revirado, tem sido publicado várias e várias edições sobre tudo e não estou me referindo ao mercado editorial de história como ruim, acho que está cada vez melhor e cada vez mais amplo.

Agora com relação aos temas mais pujantes. Eu diria que tem um jeito de fazer hoje, que parece está na moda. Na moda nesse sentido que já falei, para o pesquisador poder dialogar e que leve em consideração os desenhos daquilo do que vem se chamando, aqui no Brasil, de História Cultural. Isso está na moda, tem orientação disponível em diferentes universidades, são textos profundamente publicados tanto por editoras menores como maiores, se o pesquisador souber escrever fatalmente ele vai encontrar um caminho de publicação. Agora eu como professor sinto falta de temas como de teorias, historia social, acho que isso perdeu muito o fôlego, e vejo que a história do tempo presente está fervilhando.
Outra que vale dizer é que eu orientei na UEG de Formosa somente um tema sobre História Antiga. Não que a Grécia, que a Roma tenham perdido o sentido, que Egito tenha perdido o exotismo. Ainda o Egito continua exótico, ainda a Grécia é a infância da Europa, portanto a nossa, e Roma é um exemplo de império... Essas entidades, sobre o nosso passado, ainda está muito presente para o debate do historiador, ou seja, essas discussões são contemporâneas, mas não existe um trabalho que abrange a disciplina de História Antiga.

Álvaro: Se não quiser seguir esses temas que estão na moda vai fazer filosofia, sociologia, antropologia pegar outras linhas de pesquisas e ir à outras universidades. Uma coisa que eu acho é que os estudantes não deveriam ficar presos é pensar que a UEG - UnB. Está certo que é um bom caminho, um lugar que todos nós trilhamos, mas a questão é que existe mestrado em outras Universidades em outros países. Eu sei que a moda na UnB é “historia cultural”, agora se você pegar o universo da USP e da UNICAMP, o pesquisador vai encontrar outros ambientes por lá. Você tem outras possibilidades, o pesquisador faz uma pesquisa sobre quais os temas mais recorrentes em outras universidades, são outras linhas de pesquisas.


(...) O historiador consegue produzir uma monografia sem o auxilio das fontes, somente por leituras bibliográficas?

Juliano Pirajá: Eu diria que é possível fazer um trabalho de História. Desde que o pesquisador deixe claro que está fazendo uma historiografia. Ou seja, está vendo o seu trabalho com determinada escola, ou determinado número de pensadores, ou só um pensador especificamente. Mas em minha opinião eu acho ruim um trabalho sem fontes. Não que o trabalho de historiografia seja ruim pelo contrário, mas um trabalho historiográfico pressupõe que você trate suas leituras como fonte – que o pesquisador já tenha a fonte e ele deve questionar a maneira como aquele outro historiador chegou àquelas conclusões. Agora tratar um assunto diverso no passado ou presente, eu acho que é ruim um trabalho que não apresente fontes. Mesmo porque eu vejo que esse é o trabalho mais gostoso do historiador, as outras partes são bem trabalhosas como a narrativa, estruturação do texto a parte boa é o pesquisador se debruçar sob as fontes

Marcelo Brito: Dependendo da época e dependendo da temática, pode ser muito difícil o pesquisador ter acesso a fontes primárias. Por isso eu não invalido (...) um trabalho que priorize uma discussão bibliográfica sobre determinado tema. (...) Eu sinto que ainda existe na História – isso se tratando de uma opinião minha – a hegemonia do que chamo de “paradigma do detetive” – um bom historiador é aquele que consegue descobrir fontes desconhecidas. Esse é um paradigma já clássico. No entanto, eu também prezo muito uma outra opinião, uma outra concepção, que é o “paradigma do analista” – que é aquele historiador que consegue voltar às fontes já conhecidas e a partir de uma análise aprimorada retirar novos sentidos que ainda não estavam sendo abordados. Às vezes um aluno revisita uma fonte velha e conhecida e alcança sentidos incríveis, tanto sobre o passado que investiga como para o presente de onde fala.

Álvaro: Eu vejo que o problema quando o pesquisador vai tratar das fontes é o problema de erudição e também a ausência de ingenuidade. Por exemplo, se o pesquisador for a um arquivo como em Portugal, lá ele encontra nos documentos com “LX”. São vários documentos com essas letras LX, pois essa era a forma que os escritores dos documentos chamavam Lisboa. Nesse pequeno exemplo, podemos reparar que se o pesquisador estiver desprovido de erudição, de conseguir compreender a linguagem originária, ele consegue fazer uma leitura dessas fontes. Numa entrevista de Carlo Ginzburg ele diz que chegou a encontrar os documentos do Menocchio e ficou durante sete anos pensando em como se apropriar e utilizar daquelas fontes, para daí escrever o livro – O queijo e os vermes. Então a questão central em lidar com as fontes é a erudição. Além da descoberta o pesquisador deve entrar com sua hipótese, mas essa ancorada na erudição.

Juliano Pirajá: Nesse sentindo não sei muito bem se existe um trabalho sem fontes.

Marcelo Brito: Inclusive quando o pesquisador está trabalhando com algum autor, muito provavelmente esse autor já fez um trabalho com fontes.


A paixão do historiador sobre a leitura das fontes.
** O trabalho pelo o qual o professor Juliano se refere são leituras de algumas edições do jornal: Matutina Meiapontense, cobrado em História Regional pelo professor Fábio Santa Cruz.

Juliano Pirajá: Nesse exercício que o professor Fábio cobrou para o terceiro ano, por exemplo, quem não gostou é o suicídio acadêmico. Você pode não gostar do assunto tudo bem, cada um segue o seu caminho. Agora você não “se surpreender” com uma leitura de uma fonte de mais de 200 anos, aí o acadêmico tem que se perguntar que tipo de historiador ele quer ser. Eu acho que o historiador tem que se surpreender com esses tipos de fonte, falar: “olha que interessante essa frase, o que será que ele está querendo dizer? Quem será que é esse sujeito? Quem escreveu isso?”

Álvaro: Eu me lembro de uma experiência, tive que fazer uma linha de pesquisa para o professor, já falecido, José Ronaldo Teles aqui da UEG. Estávamos fazendo uma pesquisa aqui em Formosa no arquivo, mas havia em um calor bastante forte e tinha um casamento do lado, então era uma cena maluca. Só que de repente o professor começou a rir, eu perguntei para ele o que tinha visto e ele mandou eu lê, era muito difícil de entender, pois era um documento do século retrasado, mas dava para entender um trecho: “duas panelas de escravo.” Diante disso o professor achou todo um desdobramento e ele achou graça disso. Portanto, eu acho que se não tiver esse espanto, essa paixão o historiador perde o seu oficio.


Porque ninguém comenta sobre o PIBQ?

Álvaro: Primeiro é liberado para Anápolis e Goiânia e o que sobra eles dão para outras unidades. O que eu acho que falta aqui é uma força estudantil que exija essas questões. Nós somos a terceira maior Unidade em número de alunos e a gente não tem um PIBQ aqui em Formosa é de estranhar. Então aqui em nossa Universidade “se você não chorar, você não vai mamá.”

Juliano Pirajá: O problema existe. Nós somos, por volta de 28 mil alunos na UEG e a gente vê disponível a cada seleção o PIBQ que é via CNPQ, o PVQ que é voluntário e mais algumas bolsas da UEG. Esses juntos não dão um total de 300 bolsas. O que acontece é que há um processo de seleção e esse processo se dá de diferentes formas, o aluno e o professor são avaliados. Todos os professores de nossa Unidade, todos eles, estão livres para uma ou duas vezes por ano para propor um projeto de pesquisa. Ou seja, todos os professores podem associar alunos para esse tipo de pesquisa, seja para o programa voluntário ou para a bolsa. O programa voluntário geralmente, isso se o projeto atender os requisitos necessários será aprovado. Aqui em nossa Unidade eu nunca vi barrar uma pesquisa se quer, todas são livres como deve ser. Vamos ser avaliados por outro alguém que ira cobrar se a gente está escrevendo direito, sendo claro, sendo obvio. Agora para bolsas com remuneração a concorrência é maior e isso nos dois níveis tanto para os professores, quanto para os alunos. Agora quando ocorre essa junção de um professor já doutor e um aluno com histórico de boas notas (10), o projeto é praticamente aceito.
Voltando para a pergunta do porque que a gente não comenta isso aqui na UEG; primeiro porque não somos incentivados a falar sobre isso. Então muitos de nós professores estamos para contribuir em carga horária, agora isso pode mudar se houver mudanças nos modelos de avaliação, mas isso não depende exclusivamente da vontade de alunos e professores. Depende sim da vontade de alunos, de professores, de auxiliares administrativo, do estado e da direção da UEG para discutir isso com seriedade sobre essas bolsas. Agora se o aluno tem um projeto de pesquisa ele deve procurar um professor, agora se o professor vai trabalhar com ele no projeto de pesquisa é outra coisa. O professor não é obrigado a aceitar qualquer aluno e nem o aluno obrigado aceitar qualquer projeto vindo de algum professor; na relação boa entre professor e aluno eles podem se dialogar e procurar uma bolsa de pesquisa para ser remunerado, agora depende muito do aluno se manifestar. Tem que haver essa relação, a cobrança dos alunos sobre esse PIBQ, pois essa é a primeira conversa que estou tendo sobre pesquisa há dois anos na UEG. Eu tinha, mas quando eu organizava, por isso é necessário a manifestação do aluno.


Como o C.A pode agir ativamente para a reivindicação dessas pesquisas?

Álvaro: O centro acadêmico possibilita esse intermédio fundamental. Por exemplo, recepção dos alunos calouros na Universidade, é um problema grave porque se recepcionam eles com o trote. Qual a recepção, se vocês estivessem restituídos em uma organização estudantil, que seria ideal. Pegar todos os problemas da UEG, todas as soluções, todos os benefícios da Universidade e ir apresentando para os alunos desde o primeiro ano. Em forma de informativo explicar tudo o que compõe a Universidade, pois essa apresentação que você tem em qualquer Universidade. Isso não é um dever da instituição, falando do corpo docente ou do administrativo, mas uma apresentação própria dos alunos, então seria uma comunicação entre vocês.