quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Os primeiros relatos do Brasil

O relato do novo mundo por grande momento é feito apenas por um lado da história. Com isso podemos ressaltar, os primeiros parágrafos do livro Enterrem Meu Coração na Curva do Rio que traz a imagem de filmes de faroeste. Um bando de índio atacando os moçinho que por meio de um “milagre” consegue se salvar, derrotando assim vários peles vermelhas. Dessa forma percebemos que os relatos feitos por viajantes, ou moçinhos, são colocados em uma percepção típica européia. Ou seja, são relatos influenciados por sua cultura européia e pensamento cristão e que pouco se preocupava com o outro lado da história. Portanto o autor Dee Brown buscou em sua obra entender o outro lado dessa história: “A tal gente (pintada) que os atacavam (brancos) é um povo ativo, nobre, com culturas e costumes próprios.”


A carta de
Pero Vaz de Caminnha

Diante disso podemos ressaltar relatos que nos traz uma visão européia acerca do mundo novo. Cristovão Colombo, Cabeza de Vaca, Todorov, Josefina são vários autores que relatam o encontro com o outro. Raro são eles, do inicio, sobre a checada dos portugueses em terras que mais tarde seria o Brasil, pode-se ainda assim, destacar quatro relatos que para muitos historiadores, em diversos artigos e livros, tornou-se a certidão de nascimento do Brasil. A Carta de Pero Vaz de Caminha, junto com a Relação do Piloto Anônimo, a Carta do Mestre João Faras e a Certidão de Valentim Fernandes são quatro importantes relatos que nos remete ao encontro do português com os nativos e também das terras que mais tarde será o Brasil.

É comum ouvirmos a palavra bárbara, em diversos momentos da história. Desde as épocas remotas a palavra sugere uma visão influênciada sobre outros povos. Isso ocorreu com Grécia, Roma, Europa e por fim o mundo novo America.

Em vista do encontro entre o português (europeu) e os índios, Pero Vaz de Caminha cita a seguinte passagem. “Ali por então não houve mais fala ou entendimento com eles, por a barbaria deles ser tamanha, que se não entendia nem ouvia ninguém.” A própria criação da palavra bárbara está descrito, pela falta de compreensão da linguagem entre um povo, que se dizem civilizados, a outros, incivilizados. Ou como ressalta Ronald Raminelli, em Eva Tupinambá, “o desconhecimento da palavra revelada, da organização estatal e da escrita foram vistos como marca de barbárie e primitivo.” Por tanto, Vaz de Caminha faz referencia aquele povo como bárbaros que pouco entende a cultura e o linguajar europeu/português. Percebe-se que diante da forte presença cristã, havia ainda uma “preocupação” (entre aspas) dos portugueses com os índios. De forma evidente, a carta traz em seus últimos parágrafos que “o melhor fruto, que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente.”

Alem dessa preocupação em converter aquela gente a salvação, a carta também faz menção a terra fértil e a suposta presença de ouro e prata, que mais tarde Vaz Caminha diz não ter tanta certeza, já que os próprios índios fizeram gesto que levou os portugueses terem essa compreensão. Mais tarde sabemos que a crença de ouro e prata era mais uma ambição do que realidade. No capitulo O mundo sem mal , do livro Visão do Paraíso – Sergio Buarque, o autor faz uma pergunta logo no primeiro parágrafo, e relata que os cronistas lusitanos relatavam, que a suposta longevidades dos índios, sem nenhum mal com doenças ou coisas do tipo se dava por fatores como: “bons céus, bons ares, boas águas de que desfrutavam eles (indígenas).” Essa passagem do livro se relaciona de forma evidente ao que Vaz de Caminha também relata. “Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.” Portanto a presença da natureza esplêndida e o meio físico era por muitas vezes ressaltado pelos europeus diante da América.

As descrições físicas dos índios e do meio são outros pontos de destaque na carta. Por muitas vezes o autor se sente constrangido perante em não entender o novo. Tanto que de inicio na carta, Vaz de Caminha faz questão de afirmar de sua ignorância perante aquilo que viu e deve descrever.

Mapa Altas Miller
 Lopo Homem e Pedro Reinel
 O encontro do português, relatado, com o outro se assemelha a diversos outros relatos entre europeu e mundo novo. As fontes vêm por vezes com diversas contradições, mais quase sempre aparecem com um forte imaginário, preconceito existente, influencia cristã, entre outras coisas também conseguimos perceber a estratégia existente na conquista entre europeu e índio. Fugindo por alguns instantes do tema central, percebemos a grande diferença em se lê os relatos de Josefina de Coll, em Resistência Indígena, onde o titulo falar por si só, e lê Cristovão Colombo chamando os índios de povo afáveis e amáveis. Lógico que trata-se de condições e contextos diferentes, mas ainda sim fica-se claro a quebra do imaginário que os índios aceitariam o europeu com livre e espontânea vontade.

Retornando ao tema central, percebemos que dentre as três principais fontes do “achamento” do Brasil, a Carta de Pero Vaz de Caminha faz nos compreender que o contato dos navegantes lusos com os indígenas, não é tratado de forma agressiva. “Ali acudiram logo obra de duzentos homens, todos nus, e com arcos e setas nas mãos. Aqueles que nós levávamos acenaram-lhes que se afastassem e pousassem os arcos; e eles os pousaram, mas não se afastaram muito.” Apesar da diferença cultural – evidente quando os índios estranham animais trazidos nas embarcações – e a diferença no linguajar, a carta nos revela uma forma mais cordial entre portugueses e indígenas, sem perder do ponto de vista os preconceitos e interesse dos europeus na terra.

As três fontes, por assim dizer são todas importantes para a historiografia tanto portuguesa, quanto brasileira. Por muitas vezes os relatos, etnocêntrico se assemelha bastante a um diário, escrito pelos próprios escrivães, sobreviventes ou pilotos. Dentre o ultimo percebemos o relato mais técnico. Fica-se singular a carta de Vaz de Caminha, por apresentar diversos aspectos que nos remetem a precisão, seja geográfica ou cultural, da fonte. A leitura dos três relatos são informativos, como o próprio nome sugere são fontes históricas por natureza. No entanto apenas nos remete a um contexto superficial do que realmente seria o outro, trata-se de uma visão do outro (europeu) sobre os outros (indígenas).

O último suspiro - Rodolfo Amoedo

“A tendência ao realismo português, em contraposição ao imaginativo espanhol, permitiu a famosa boutade: retire-se tudo que há de grandioso num espanhol e resultará daí um português.” Fortemente ligada ao imaginário fantasioso, muitos relatos do novo mundo é trazido de forma extraordinária. Por sua vez o português Pero Vaz de Caminha tenta focalizar-se mais ao encontro, apesar de toda postura européia – desde chamar o outro de bárbaro até comparar as índias com mulheres portuguesas. Portanto percebemos diante dos três principais relatos, que marcam o descobrimento do Brasil, fatores mais relacionados ao mundo racional, objetivo e burocrata. Sem as fantasias e o mundo imaginário criado em outros relatos, muitos deles pelos espanhóis apesar de ficar claro que também os portugueses possuíam seus imaginários em relação ao tempo de grandes navegações. Sergio Buarque e Gilberto Freyre são dois intelectuais que buscam caracterizar a figura do colonizador português. Em comparação com inglês e espanhol Freyre cita que o português “assemelhava-se em uns pontos a do inglês; em outros do espanhol. Um espanhol sem flama guerreira nem ortodoxia dramática do conquistador do México e do Peru; um inglês sem as linhas puritanas.” Vale ressaltar que tanto Gilberto Freyre quanto Sergio Buarque tem certa aversão a forma pela qual o Brasil foi colonizado. Tanto um quanto o outro, ligam o estagio atual, de quando fizeram a obra (Brasil atrasado), ao passado do Brasil explorado.


Um relato bastante técnico do Mestre João, ou como ele se autodenomina “do criado de Vossa Alteza e vosso leal servidor”, traz como destaque o seguinte trecho: “Quanto, Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um mapa-múndi que tem Pero Vaz Bisagudo e por aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; mas aquele mapa-múndi não certifica se esta terra é habitada ou não; é mapa dos antigos e ali achará Vossa Alteza escrita também a Mina.” Diante disso, percebemos que a chegada do português nessa terra, não foi um acaso como se pensa em descobrimento do Brasil. A presença de um mapa-múndi que especifica essa terra, faz nos remeter que o “achamento” do Brasil foi um fato predestinado pelos portugueses. Outro fator que merece destaque na carta do mestre João é por se tratar do primeiro documento conhecido que descreveu a constelação do Cruzeiro do Sul e as estrelas próximas ao pólo Sul. Chama-se atenção essa referencia que o autor do documento da sobre a astronomia, isso porque evidentemente o autor fosse um estudioso de astronomia alem de ser físico.


O primeiro encontro
Oscar Pereira da Silva

Analise de documentos históricos, a cerca do descobrimento e contato com o outro, não poderia desconsiderar o gênero literário característico dessa época, a literatura de viagem e relatos de naufrágios. A característica singular, quase como um diário de quem escreve, onde se expressa detalhes e informações muitas vezes influenciados pelos suas próprios ideais – quase sempre cristão – e a tentativa de se expressar o fato tal como ele ocorreu são fatores desse tipo de gênero. A carta de Pero Vaz de Caminha se insere nesse estilo literário, pois possui características desse tipo de narrativa. A busca de relatar a fauna e flora da nova terra, o sentido universalista que compara o outro com o europeu, o caráter singular da carta, ao estilo de diário de bordo, e as informações que a carta revela são fatores que nos remete a esse estilo literário. Ao relatar o desaparecimento da nau de Vasco de Ataide, podemos perceber um principio do estilo do relato de naufrágios. Percebemos uma característica dramática quando Vaz de Caminha faz referencia ao desaparecimento da nau. “Na noite seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com sua nau, sem haver tempo forte nem contrário para que tal acontecesse. Fez o capitão suas diligências para o achar, a uma e outra parte, mas não apareceu mais!”

A principio qual seria o principal interesse dos portugueses pela nova terra? A verdadeira intenção de Pedro Álvares Cabral era a chegada na Índia, pois oferecia a Portugal melhores valores de produto, “como as especiarias, os metais preciosos e uma riquíssima rede comercial já estabelecida.” Portugal queria chegar à Índia para concretizar o comercio português naquela região. O documento que torna possível a resposta para essa pergunta pode está no Relato do Piloto Anônimo. Nessa fonte, de autor desconhecido, temos percepções que abordam a viagem de Cabral como um todo e não especificamente a terra dos tupiniquins. Passagens como: “Nessa terra não vimos ferro; faltam-lhes também outros metais. Cortam a madeira com pedras” nos faz entender que o encontro com a nova terra não foi algo extraordinário. O relato faz, também, referencias que assemelha a carta de Pero Vaz de Caminha. Vale destacar que nesse relato temos a citação do nome do capitão que conduzia à armada com 13 navios . Tanto a carta de Pero Vaz de Caminha, quanto à do Mestre João são relatos que faz por diversas vezes referencia ao capitão, porem nunca sendo citado o nome. Somente nessa O Piloto, português, anônimo lembra o nome do capitão; que é o tão famoso, em livros didáticos, Pedro Álvares Cabral.
 
Outro importante documento para a história do Brasil é a chamada Certidão de Valentim Fernandes. Tal como a carta de Pero Vaz de Caminha, esse ato de Fernandes também se refere ao outro indígena sobre o olha europeu. Na fonte de Valentim traz como diversos aspectos, fatores como: o canibalismo – “como carnes assadas ou cozidas (...) e ainda humanas, dos inimigos...” – o pau-brasil e dá, ainda um maior, destaque entre a falta de fé desses povos indígenas... é citado todo um parágrafo sobre isso: "Os habitantes não tem fé nem religião ou idolatria e nenhum outro conhecimento do seu Criador; nem se sujeitam a leis nem a algum domínio, a não ser ao conselho dos velhos.” Vale ressaltar que não somente o descobrimento mais também a primeira expedição é citada na certidão de Valentim Fernandes. O documento também, muito, se assemelha de Pero Vaz de Caminha, por vezes aparece referencia física dos índios e também da natureza da nova terra.

E por fim a Carta do jovem das Caravelas, de autoria também desconhecida. Nessa pequena fonte poucas coisas novas, em relação às outras fontes, têm. É apenas mais uma fonte, curta, que faz referencia direta a viagem de Cabral para a descoberta de novas terras. “Na oitava da Páscoa seguinte, chegou a uma terra novamente descoberta, a qual pôs o nome de Santa Cruz.” Novamente, nessa fonte, os índios são colocados como seres pacíficos e inocentes e que merecem salvação.


sábado, 10 de setembro de 2011

Badaró e Bomba - H
A parceria que não podia faltar

O boletim Badaró, assim como o blog da turma do terceiro ano: “Bomba-H”, é uma iniciativa digna de elogios, pois trata-se de um espaço em que nós acadêmicos e universitários do curso de História podemos disponibilizar artigos, textos e informações da “realidade” (entre aspas) que nos cerca.

No entanto o Badaró até a sua terceira edição não tinha a pretensão de ser publicado também na internet. Mas essa perspectiva começou a ganha ênfase quando a terceira edição foi publicada e distribuída, pois tamanha foi a distribuição que muitos acadêmicos, inclusive nós editores, ficaram sem seu exemplar. Portanto começamos a nos indagar: porque não tornar o Badaró também visível ao publico virtual? Afinal de contas todos poderiam ter acesso e além disso nós editores do Badaró e, os mesmos, responsáveis pelo Bomba – H queremos que esses textos produzidos estejam disponíveis também ao publico fora de nossa Unidade acadêmica de Formosa. Portanto, apresentamos o boletim opinativo e informativo Badaró que é produzido por alguns alunos do terceiro ano atual de 2011.

A seguir você poderá conferir a terceira edição do Badaró, cujo o tema é transparência. Conforme novas publicações, também iremos disponibilizá-lo no Bomba-H. E lembre-se qualquer sugestão ou critica deixe seu comentário ou envie o seu e-mail para: seguidores.historia@gmail.com

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Brasil: três tenores



Abre a cortina do passado

Tira a mãe preta do cerrado

Bota o rei congo no congado

Canta de novo o trovador

A merencória à luz da lua

Toda canção do seu amor

Quero ver essa dona caminhando

Pelos salões arrastando

O seu vestido rendado...

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Considerações sobre:
Paraguai e Uruguai de 1870 a 1930

Paraguai e Uruguai são dois países da região platina marcados por diversos conflitos. Tanto no campo político-partidário quanto cívico entre outros. Estes sofreriam entre o final do século XIX e início do século XX diversas transformações. Desde o conflito bélico da Guerra do Paraguai e suas conseqüências, a intromissão brasileira e argentina em assuntos internos, períodos de estabilidade político, relativo crescimento econômico, dependência do capital estrangeiro até os reflexos da Primeira Guerra Mundial e a Grande Depressão.

As disputas por supremacia – Brasil e Argentina – na região impactaram diretamente nos respectivos países. O império brasileiro, consideravelmente estável após o fim das revoltas internas, vislumbra aumentar sua influência. Inclusive por intervenções. Feito a ofensiva contra Oribe e Rosas. A Argentina, liderada por Juan Manuel Rosas, se colocava, também, com intentos intervencionistas. Manuel Oribe, ministro da guerra Uruguai, pretendia a manutenção de um aliado no governo para consolidar a supremacia argentina na região do Prata. Tais ações desaqueciam os anseios brasileiros. O Brasil se aliou aos opositores nos dois países para derrubar o ditador argentino em 1852.


Após a matança sem precedentes da Guerra da Tríplice Aliança os aliados Brasil e Argentina retomariam certas rivalidades. A mais prejudicada, a República paraguaia, jamais se recuperaria do desastre militar de decorrências catastróficas: sua população masculina foi praticamente dizimada e metade de seus habitantes mortos (de 221 mil sobreviventes apenas 28 mil eram homens), ainda a ocupação aliada, intromissão estrangeira, cofres vazios e economicamente arrasada. A destruição da economia foi de tal manta que o país apenas recebeu de forma matizada o impacto que teve na consolidação das economias agroexportadoras da Argentina e do Uruguai, a introdução de fatores produtivos como a imigração européia e os capitais estrangeiros.

Quanto ao Uruguai tradicional, caracterizado dentre outros aspectos pelo comércio de gado e pelo caudilhismo possuía transportes mais ágeis, favorecido pela mobilidade de sua principal mercadoria (gado), pelo uso de barcos a vela e a vapor no rio Uruguai (beneficiou a comunicação com a capital). Era extremamente dependente do comércio e com poucas desigualdades e tensões sociais. “Ao contrário, sob alguns aspectos [...] destacava-se numa América Latina caracterizada no século XIX por classes sociais fortemente diferenciadas”. Mas, por outro lado, a luta civil também era endêmica. Coberto por disputas dos partidos Colorados e Blancos. Ao mesmo tempo, tal qual o Paraguai sofrera com a intromissão do Brasil e Argentina na política interna. Parceiros na guerra da Tríplice Aliança. Conflito que favoreceu alguns comerciantes, muitos estrangeiros. Para o Uruguai as repercussões da guerra foram menores, apesar de a situação nesse país ter sido o elemento catalisador das contrações que levaram ao conflito .

Nessa perspectiva ainda, no Paraguai do pós-guerra a nova Constituição promulgada deveria inviabilizar qualquer forma de ditadura. Porém, perenes articulações implicariam graves tensões; como o assassinato do governo Juan Batista Gill em 1877 e a tomada do poder pelo general Caballero. Vale ressaltar, nos dois países o elemento decisivo encontrava-se no Exército. Da mesma forma, a manutenção colorada uruguaia contava com respaldo militar. No Paraguai, o partido também conhecido como colorado se manteria ininterruptamente no poder de 1880 a 1904. Com o golpe militar a estabilidade política seria dissolvida e os acentuados problemas sociais do povo seriam margeados.

A oposição paraguaia formou-se, primeiramente, como partido oficial com a Associação Republicana Nacional. Contrários ao governo Caballero e seu partido colorado (contrário ao centro Democrático, tido como partido Azul). Embora houvesse um contraste político partidário essas correntes possuíam muitos interesses em comum. Ao Uruguai o advento da oposição foi acompanhado por fortes coerções. O aparecimento de uma frente oposicionista composta das facções ‘legalistas’ dos blancos e colorados provocou uma reação autoritária do general Máximo Santos levando-o a uma demasiada repressão. A imposição do governo militar, no qual Santos era o segundo a exercer o poder, afastou também os principistas, grupo que se separava dos partidos tradicionais, constituído basicamente por jovens intelectuais, provenientes de famílias antigas, já não mais tão ricas como dantes. “Guiados por um liberalismo doutrinário extremado [...] defendiam ardorosamente um ordem legal baseada em idéias e modelos europeus na qual eram fundamentais a desconfiança do Estado e uma crença arraigada nos direitos do indivíduo.” Entretanto, com Santos o militarismo não conseguiria sobreviver a prosperidade que o mesmo contribui para fomento da modernização do país.

No Paraguai o presidente civil Juan Gualberto Gonzales cai (1894) traído pelo exército para subida de Juan Bautista Egusquiza. Este último tentara conciliações entre os moderados dos respectivos partidos. Mas, tal como outros, passaria por crises sucessórias devido ao desenho da constituição (não permitia reeleição) e outros. Nos anos 1904 a 1923 o liberalismo e a anarquia protagonizaram. Antigas brigas, nunca totalmente solucionadas reacendiam, com políticas de abstencionismo por parte dos colorados. Sempre com cortejos ao Exército. Em contraste o Uruguai tentava amenizar seus transtornos com a política de co-participação.

O batlismo, contributo à consolidação democrática, dominava a vida política uruguaia no período. José Batlle y Ordónez, desde sua primeira eleição em 1903 até sua morte em 1929, controlou a política no Uruguai. Sendo um personagem relevante para modernização do país por meio de suas reformas. Além de atuar de modo avesso aos regimes trabalhistas autocráticos da época, ao apoiar as reivindicações da classe média e trabalhista. Trouxe uma pacificação incontestável, apesar das insatisfações blancas. Os membros da elite dirigente, conhecidos como batlistas, “eram orientados por uma ideologia de cunho reformista e modernizador forjada nos últimos trinta anos do século XIX nas salas de aulas do Ateneu de Montevideu e nos círculos jornalísticos da capital uruguaia” . Ao mesmo tempo, os batlistas não estiveram isentos de revoltas.

Novas e velhas abstinências seguiam-se no Paraguai. Manuel Gondra, dos radicais, assumiu o poder por um breve momento, até novo golpe derrubá-lo, envolvendo em desordem o país. Quando as eleições foram realizadas em 1910 os colorados e cívicos se abstiveram, de tal modo que os radicais elegeram seu candidato, sem oposição. “A primeira administração de Gondra tinha apenas dois meses quando de repente o coronel Jara se insurgiu e afastou-se do cargo. O golpe desencadeou um dos períodos de anarquia na história do Paraguai. Era questão de tempo a derrubada de Jara.” Desta vez o general chefe do exército tão importante em outrora seria desconexo da cena política. Em julho, um segundo levante, chefiado por uma coligação de cívicos e colorados, impetraria afastá-lo do poder.

Liberato Rojas e Eduardo Scharer adotaram posturas diferentes de seus antecessores. Foi um período de relativa estabilidade. De benefícios pela demanda da Primeira Guerra Mundial. Com novas eleições viria a figura de Franco (1916) que efetuou reformas relevantes de caráter eleitoral. Sua morte súbita levaria também os “bons tempos”. Sopravam novamente os ventos fortes de intrigas políticas, tramóias, renúncias, esquemas e exílios. De mesmo modo, a economia uruguaia cresceu com a demanda da Grande Guerra. Favorecendo a modernização do país (período de forte migração estrangeira, fato que por muito a via cessado). Tal crescimento se dava principalmente pela indústria frigorífica, o capital estrangeiro e a pecuária. Mesmo com certa “industrialização” no período as economias platinas permaneceram agrárias. A estrutura fundiária não modificou, uma vez que se manteve a propriedade latifundiária.

A Primeira Guerra e a crise financeira de 1929 repercutiram diretamente nas economias dos países latino-americanos. Inclusive debruçaram-se sobre fatos inéditos: a dificuldade de importação de produtos europeus e estadunidense e o dever de nutrir o mercado interno. Muitos se beneficiaram com a necessidade de abastecimento da Europa no período. Já com a crise foi preciso incentivar o processo de fabricação de bens de consumo. A crise de 1929 lançou as economias latino-americanas ao colapso. O volume do comércio internacional diminuiria fortemente, os investimentos estrangeiros faltos, as importações dos mais variados produtos dificultadas. Essa conjuntura acumularia falências, desemprego e reduções salariais.

Revoluções e ditaduras estabeleceram-se em um contexto de persistência de uma economia agroexportadora majoritariamente dependente da área central do capitalismo. A questão social permanecia problemática no Uruguai e Paraguai. No entanto esse último tivera que lidar ainda com intrigas diplomáticas e o tratamento da Guerra do Chaco (1923-1932). Gondrista de ponta, Eusebio Ayala, eleito interinamente tinha problemas –feito a condição de miséria da população, a ameaça externa vizinha e a permanente questão agrária. Foi importante no processo das eleições, inclinado à realização seguinte a seu mandato de uma disputa presidencial inédita no país. Outros problemas tinham o Uruguai, reformas limitadas, a questão da co-participação, exigências e propostas trabalhistas cada vez mais intensas.

Nas Américas, na óptica de Hobsbawm, as instituições políticas adequadamente democráticas no período entreguerras a situação seria mais confusa, mas não chegava a sugerir um avanço geral das instituições democráticas. A lista de Estados consistentemente e não autoritários no hemisfério ocidental era curta: Canadá, Colômbia, Costa Rica, os EUA e a hoje esquecida “Suiça da América Latina”, o Uruguai. Conhecido como suíça “sul-americana” devido sua estabilidade política e outros aspectos se comparada aos americanos do sul. Já O Paraguai acostumado a golpes, disputaria a região do Chaco com a Bolívia. Seus governantes foram atormentados pela quebra do orgulho paraguaio com a humilhação proveniente de um tratado com os bolivianos. A tensão não cessa, a guerra chega dopada de sangue. Mas, inacreditavelmente , o Paraguai venceria desta vez. Locais, regionais ou globais, as guerras do século XX iriam dar se numa escala muito mais vasta que qualquer coisa experimentada antes. Uma das que mais vitimou foi a Guerra do Chaco 1932-5; estando inserida na era do massacre inaugurada em 1914.

Para o cientista político francês Olivier Dabène as razões que estimularam estes países isolados e pobres ao conflito bélico residem principalmente em uma ordem histórica e econômica . Sob sua perspectiva, Paraguai e Bolívia abrigavam um sentimento nacionalista herdado das derrotas nas guerras. A guerra da Tríplice Aliança (1864-1870) foi desastrosa para o Paraguai e a guerra do Pacífico (1879-1886), por outro lado, fez com que a Bolívia perdesse o acesso ao mar, cuja recuperação se converteu, durante muito tempo, numa obsessão. Somavam-se ainda as demarcações fronteiriças mal delimitadas na grande planície do Chaco (600.000 Km²).

Tal período, 1870 e 1930, tangencia tempos de relativa prosperidade material, certa estabilidade uruguaia e quase sempre instabilidade paraguaia no campo político. As disputas hegemônicas paraguaias postas em jogo, mesmo entre partidários distintos nutria-se de ambições semelhantes. Em tese sua Constituição deveria privar formas ditatoriais, mas copiosos golpes foram deferidos. Mesmo Ayala, vitorioso na guerra contra a Bolívia sofreria um golpe em 1936, sob liderança do general Rafael Franco. Nem os “bons tempos” modificariam os quadros de pauperismo e a estrutura fundiária, mantinham-se os latifundiários. Acerca da Guerra do Chaco “ambos [Paraguai e Bolívia] os países saiam da guerra extremamente debilitados e sob ditaduras empenhadas em reconstruir a vida política nacional e em responder pela força à mobilização social, que, como nos demais países significava uma ameaça.” Por outro lado a década de 30 começa com ondas de medidas reformistas no Uruguai. Com intervenções de Estado no mercado de gado, a intensificação dos anseios por salário mínimo, pensões e direitos trabalhistas. Todavia, acordos oportunistas não mais dariam cabo diante de grupos sociais e políticos antagônicos. Tensões políticas se acirraram favorecidas pelas repercussões internas de 1929 (o Paraguai teve os efeitos da depressão limitados posto que sua população era amplamente camponesa) que acentuou a dependência dos estadunidenses. O golpe não tardaria, iniciando em 1933 a denominada Dictadura de Gabriel Terra. Todavia, permaneceriam os colorados no poder até 1973.

Fernando Teixeira


Bibliográfia:
DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra: Nova história da Guerra do Paraguai/ São Paulo: Companhia das Letras, 2002
ODDONE, Juan A. “A Formação do Uruguai Moderno”. In História da América Latina: de 1870 a 1930, volume V/ org. Leslie Bethell. Trad. Geraldo Gerson de Souza – I Ed, I reimpr. – São Paulo: Edusp; Brasília, 2008
DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra: Nova história da Guerra do Paraguai/ São Paulo: Companhia das Letras, 2002
SOUZA, Marcos Alves de. A cultura política do “batlismo” no Uruguai: 1903-1958/ São Paulo: Fapesp, 2003.
LEWIS, Paul H. O Paraguai da Guerra da Tríplice Aliança a Guerra do Chaco. In: História da América Latina: de 1870 a 1930, volume V/ org. Leslie Bethell. Trad. Geraldo Gerson de Souza – I Ed, I reimpr. – São Paulo: Edusp; Brasília, 2008.
HOBSBAWM, Eric. Era do extremos: O breve século XX 1914-1991: trad. Marcos Santarrita/ São Paulo: Companhia das Letras, 1995
DABÈNE, Olivier. América Latina no século XX/ trad. Maria Izabel Mallmann. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003

domingo, 7 de agosto de 2011

Relatos de viagens
Imagens do período descobrimentista

Como que numa interdependência cumplicista, viagem e relato podem ser vislumbrados como duas faces de uma mesma realidade. Quantas viagens se efetivaram por fundar-se em relatos fantasiosos e elucubrações cientificas e literárias e quantos relatos surgiram fantasiosos e impositivos em eloquentes colocações, matizados de literatura e cientificidade, a partir de uma viagem? Viagem e relato estão tão intrinsecamente imbricados um no outro que é difícil dissociá-los. Toda viagem gera um relato, ainda que do viajante para ele próprio num exercício mental, num psico-relatar, que pode vir a ser socializado a terceiros ou não, e todo relato possibilita uma viagem, senão física com deslocamento no tempo e no espaço, pelo menos num exercício mental que transpõem o leitor de sua situação no tempo e no espaço, para o contexto do relato.


“O que não é uma viagem? Por menos que se dê um sentido figurado a esse termo - e jamais pudemos deixar de fazê-lo – a viagem coincide com a vida, nem mais nem menos: o que é esta, além de uma passagem do nascimento à morte? O deslocamento no espaço é o indicio primeiro do mais óbvio, da mudança; ora, quem diz vida diz mudança. O relato também se alimenta da mudança: nesse sentido, viagem e relato implicam-se mutuamente. A viagem no espaço simboliza a passagem do tempo, o deslocamento físico o faz para a mudança interior: tudo é viagem, mas trata-se de um tudo sem identidade. A viagem transcende todas as categorias, incluindo a da mudança, do mesmo e do outro, pois desde a mais remota antiguidade são acumuladas viagens de descobrimento, explorações do desconhecido, e viagens de regresso, reaproximação do familiar: os argonautas são grandes viajantes, mas Ulisses também o é.Os relatos de viagens são tão antigos quanto as viagens ou mais. A primeira grande vaga de viagens modernas é a do fim do século XV e do século XVI: ora naquele momento, e por mais que isso se pareça paradoxal, os relatos precedem as viagens. Desde a alta Idade Média, relatos mais ou menos fantasistas gozam da simpatia do povo e mantem acesa a sua curiosidade.”.


Imagens do período descobrimentista um retrato da expanção ultramarina
As navegações que se faziam antes do domínio dos mares pelos europeus eram rudimentares e se fundavam no arrimar, sem nunca perder de vistas a terra firme, sob pena de sucumbir aos perigos dos oceanos. As viagens ultramarinas, que tem seus primórdioscronologicamente localizado,no final do século XV com o desenvolvimento das caravelas portuguesas, representaram uma grande mudança para a vida como um todo no continente europeu. A descoberta de novas terras e de novos povos foi motivo de fortuna para as nações empreendedoras dessas viagens, bem como de uma série de novas informações acerca de outros costumes e outras culturas bem diferentes dos da Europa.

As informações acerca dessas descobertas chegavam a Europa por meio de uma série de relatos de viagem que os viajantes faziam durante as expedições descobrimentistas/achistas. Muitas especulações prenunciavam a existência de culturas, terras e povos distintos, que estavam além-mar. No entanto, somente após a conquista do oceano atlântico e o domínio do cabo das tormentas, os mares e oceanos foram desbravados pelos europeus que rompiam a linha do horizonte geográfico e mental de todo um continente (o continente europeu a priori e de todo o mundo conhecido progressivamente).

O mundo desconhecido com toda a sua diversidade mexia com o imaginário do individuo europeu (tanto do viajante, como do europeu comum em seu cotidiano) e despertava seu interesse por qualquer relato acerca desse assunto, o que acabou fazendo dos relatos de viagens um grande sucesso na Europa. Havia um grande número de pessoas interessadas nesses textos, a fim de tomar conhecimento do que havia de fato fora da Europa e, por esta razão, as impressões dos viajantes eram difundidas entre seus leitores. Vale lembrar que o público desses textos eram pessoas interessadas em diversos aspectos: militares, religiosos, econômicos, artísticos,botânicos, científicos, ou mesmo por simples curiosidade. No entanto esse públiconão se configurava um grande grupo, visto que era, em geral, um material pouco acessível aos menos favorecidos financeiramente o que reduzia drasticamente esse grupo.


O primeiro encontro - Oscar Pereira da Silva

De todo modo, ao longo dos anos, a quantidade de relatos produzidosiam aumentando consideravelmente, versando sobre diferentes partes do mundo e sobre os mais variados assuntos. O que a principio tinha como proposta apenas o descrever do que era visto, no sentido de mostrar ao leitor o que fosse mais próximo da verdade sobre as localidades e os povos abordados passou com o tempo e o sucesso dos relatos, a ser uma nova vertente literária fazendo o gosto dos letrados e dos artistas que se apropriavam dos relatos e se municiavam deles para compor seus próprios relatos e obras, criando misturas literárias e ícones imagéticos que tinham como objetivo vender a imagem do novo mundo com toda a sua carga de exotismo. Nesse interim, inúmeros relatos ganham um tom de aventura bastante acentuado, pois pode serdesinteressante ao leitor menos interessado ler apenas descrições de questões específicas. Sendo assim, não são poucos os textos que contêm descrições surpreendentemente imagéticas e que dão grande importância á subjetividade, estando carregados das impressões e reações do autor e daqueles que estavam a sua volta, cabe ressaltar que o mundo novo é de tal modo impactante sobre os viajantes que muito dos relatos expressam exatamente, o conflito do novo sobre uma estrutura mental vigente, estabelecida a partir do imaginário europeu.

A função primária e básica de um relato de viagem é tornar os acontecimentos ao longo de uma viagem, acessível de algum modo aos que dela não puderam fazer parte e mesmo aos próprios viajantes que correm o risco de acabar por perder, mais do que já é comum ao ser humano perder em face dos apagamentos que o cérebro faz automaticamente. Haja vista que as expedições feitas entre a era das caravelas duravam meses, submetidas às mais variadas intempéries (pestes, fome, motins, insubordinações, naufrágios, estagnações à deriva por falta de ventos, tempestades, entre outras). Sendo tão longa a duração das expedições, os relatos faziam-se indispensáveis, ainda que se excetuem todas as informações de ordem náuticas, científicas etc. que se ia levantando e catalogando, o seriam indispensáveis por razões burocráticas, para satisfação aos financiadores dessas viagens que queriam saber o quanto antes o resultado de seu investimento. Assim os relatos de viagens funcionavam como uma escrituração de todo o ocorrido ao longo do caminho percorrido, onde era comum descrever os fatos, os povos, os lugares, as intempéries e tudo mais que parecesse interessante. Nesse contexto cultural do período da expansão marítima descobrimentistao foco estava nos lugares visitados, considerados “estranhos” ou “exóticos”.

Por trás desse massivo interesse pelo novo mundoencontra-se a cobiça dos colonizadores em relação às possíveis riquezas dessas terras, ou mesmo a vontade de tomá-las para si mesmo queà base da força e das violências. De todo modo, são as descrições sobre os “nativos” as que mais farão sucesso entre os europeus leitores dos relatos de viagem. Desse modo temos nos relatos de viagem, um texto bastante marcado pelas impressões pessoais do autor, pelo olhar eurocêntrico sobre o outro, por análises científicas e por descrições muito detalhadas no que tange as questões de geografia e até mesmo aos vestuários.

Interessado nessas informações está um público leitor restrito, porém de grande relevância na época por conta de seu prestigiado posicionamento social, consome os relatos em larga escala onde a função do relato de viagem é uma das mais pertinentes: a de formar uma identidade e uma relação de alteridade com os povos chamados “selvagens”. Sendo assim, podemos deduzir que os relatos de viagem gozava de certo “status”, ede certo grau de confiabilidade, pois as ideias ali veiculadas passaram a integrar o imaginário dos europeus que, os liame reproduziam aos iletrados e analfabetos, completando o alcance dos relatos.

Livro das Armadas. séc. XVI

Contudo os relatos são fontes, rastros, reminiscências que sinalizam sobre o que foi o encontro do mundo europeu com esse, denominado “mundo novo”.Noentanto a partir da perspectiva do europeudesbravador, com toda a sua carga subjetiva, com certos nuances de legitimação do investimento, feito para com o investidor, destinatário primeiro dos relatos. Sendo assim, considerar o que relatam os viajantes autores,como verdades é umfeitoque se dá por conta dos leitores a partir de sua relação com o próprio relato. E cabe ao leitor atual, sobremaneira ao historiador que busca estabelecer contato com esses relatos, saber se reportar a tais documentos cientes que tem toda uma carga identitária, contextualizada nestes distantes séculos de história do ocidente, formatando as percepções e leituras dos narradores dos relatos. Não se pode esquecer de forma alguma, que essas foram, as primeiras informações que os europeus tiveram acerca deterras epovosnão-europeus (excetuando-se as terras e povos adjacentes dooriente conhecido), tudo o que se tinha antes eram previsões cientificas que vislumbravam outras terras e povos e especulações de cunho religioso.

A curiosidade dos leitores europeus é um fator que muito certamente influenciou e muito contribuiu para a construção de estereótipos que em nada tinha a ver coma realidade dos povos comentados nos relatos, mas antes respondiam aos construtos simbólicos que compunham o imaginário europeu da época,de todo modo, essas características, essas subjetividades intrínsecas aos relatos interferem na análise, em função do tempo e do espaço do discurso ora posto, desafiando a capacidade de perscrutar do leitor,a capacidade do leitor de sondar os relatos em busca das respostas que julgar serem-los estes capazes de fornecê-los.

As informações que os relatos nos legaram, mesmo sendo passíveis de tantas ressalvas como acima foi postulado, denotam quanto de nosso universo cosmovisual é ainda radicado em muitos estereótipos que foram forjados no imaginário humano, nos séculos das expansões ultramarítimas e que se perpetraram no tempo sendo herdadas pelos indivíduos coevos.

Dança dos Tapuias - Albert Eckhout
Relatos inaugurais como: a carta de Pero Vaz de Caminha, a certidão de Valentim, a relação do piloto anônimo desenharam concepções que vigem e regem (ainda que muitas delas no subconsciente) até os dias atuais.

Quando abordamos a indigenia americana, somos logo reportados à cordialidade e mansidão, à preguiça e inaptidão para o trabalho, ao canibalismo e bestialidade indígena, como se estes fossem denominadores inquestionáveis da identidade indígena, o que não é, mas que, no entanto prevalecem no imaginário atual referenciandoas mais imediatas questões sobre o índio.

A escravidão dos negros da terra e a posteriori dos africanos trazidos para o continente é ainda hoje quesito de análises preconcebidas, culturalmente arraigadas nas práxis, que geram um preconceito velado e uma discriminação sutil, nos hábitos dos contemporâneos no Brasil. As prescrições medievais de comportamento sexual, eurocentralizadas/eurocentralizantes que matizaram os indígenas em sua cultura nativa de devassos, luxuriosos, descaídos seres abandonados pelo Deus do cristianismo, que legou aos europeus a boa nova da salvação e ao continente Ameríndio a perversão e a decadência máxima, reservando ao europeu o dever de submeter os bárbaros, selvagens ameríndios à catequese e à salvação cristã, mesmo sob pena de total destruição de si e de sua cultural.

Joaquim Teles - Kiko di Faria


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