... “que escrever é eternizar-se é driblar a morte”...
Ariano Suassuna.

Vozes do Cerrado, nem de longe se propõem uma obra literária, com os rigores literários, linguísticos, estruturais, etc, que normalmente constituem o gabarito normativo que orientam e definem uma composição textual. Quando surgiu a ideia de escrever as memórias e peripécias de uma lendária figura, que habita o imaginário familiar, em nenhum momento e em instancia nenhuma do consciente pululou o desejo de fazer literatura de qualidade ou almejar um Best-seller. Assim desse devanear serelepe e despretendido de um vadio ao sabor dos ventos suaves e refrescantes do Cerrado chapadeiro, entre um café quentinho com boa prosa e biscoito caipira, entre risos e cortes de intervenções múltiplas desabrochou em tom pueril e jocoso o desejo de compilar tantas possíveis historias orais que ali se contavam e recontavam num eterna reinterpretação própria da oralidade. Achei aqueles contos lindos, me eram tão familiares, me falavam tanto com sua simbologia, com seus signos...
Dois amigos boêmios sóbrios de etanol e Cia, mas ébrios de fome de arte, um artista plástico, tecido no seio do catolicismo pagão tão comum da laicidade sertaneja a viver o seu sincretismo sem metria cultivando rios e mitos que não raras vezes não se tem a menor ideia de onde eles brotam ou brotaram. O outro um falante e irrequieto comedor de sua cultura com toda a sua diversidade, amante das rimas e versos ignorante das regras e metrias e abençoado pelo contexto pós- moderno de uma poesia livre e sem amarras...
Decidiu se ali que seria feito um livro como possível fosse, a partir de dois homens e uma multidão de falas, um guiaria, o outro ouviria, um escreveria o outro ilustraria e após faríamos uma prece ao deus do momento que o materializasse de modo a não se esvair. E assim se fez passamos dias de pena e folha à mão caminhando por trilhas e grotas, macegas na coleta de tantas historias que fluíam de lábios, ora saudosos e penumbrados pelo matiz da saudade, muitas vezes incompreensível ou intraduzível, ora com um brilho místico e contagiante que se fazia combustível no redigir dos causos e prosas.
De um punhado de histórias por vezes sem sentido nenhum, mas permeadas de tantos sentidos quanto possa se atribuir a elas, surgiu uma narrativa em rimas e versos que prefiro não enquadrar em nenhuma denominação, mas que desde que se materializou cumpriu mais do que qualquer um sonhou ou quis quando se propôs a escrever, ouvir redigir, corrigir, editar e em fim ler...
Do querer ser imortal e driblar a morte, dando longevidade a um punhado de causos do sertão goiano adentramos em campo tão amplo e diverso que o resultado foi o livro Vozes do Cerrado. Editado em numero limitado, mas infinitamente superior a qualquer propósito de seus idealizadores, lido por uma série de mestrandos e doutorandos da UnB e por um punhado mais de graduandos e graduados que sobre ele desejou por os olhos e apreciar o que esses estrofes poderiam ofertar-lhes em algum momento de leitura e distração. Não que o fato de o leitor ter graduação o redima de algumas imperfeições ou que o leitor letrado seja melhor que o iletrado, já que ler é um exercício que se poder fazer de muitos modos, mas fora lidos por gente da academia que o adotou como material de fundamentação de pesquisa e assim ampliou sua força de se fazer driblador da morte e também fora acolhido com amor e carinho de caipiras e lavradores e lavradoras sem letramento nenhum ou de letramento rudimentar que recebiam mais que um livro de versos e rimas, mas sim, um pedacinho de seu imaginário, de sua história, que nenhum historiador verificou como um fato histórico, mas que o amor a vida simples buscou meios de fazer com que outros ainda que pelas letras de uma poesia singela pudessem render lhes o culto de alguns instantes de leitura, um pequeno objeto para guardar ler e referenciar se quando alguém duvidar de seus causos e contos. “quem conta um conto aumenta um ponto” diz o provérbio do povo quantos pontos terei eu alinhavado no tecer da poesia e assim preenchido lacunas em nome de uma tal coerência narrativa, (mesmo inconsciente kk), o fato é que agora já não é meu ou de João ou Jucelino é de todos e cada um que dele se ocupar no mais agradeço a vida pelo Cerrado e ao Cerrado pela vida com tela contém, pois viver no cerrado é aprender a reconhecer na feiura do bioma e na singeleza de sua biodiversidade o eterno mistério do belo no colo do feio moldando vida e sonhos que se renovam e se eternizam na fala e no fazer da gente da chapada. Vozes do Cerrado é só uma pequenina gota de tanta beleza e vida que habita o “pai Cerrado” e sua família tão diversa.
Escritor da obra e do texto
Kiko Di Faria