sexta-feira, 6 de maio de 2011

Reflexões: O assassinato de Osama Bin Laden

A seguinte postagem foi retirada do site Cuba Debate Contra el Terrorismo Mediático, nesse site a matéria aparece na versão original, ou seja, em espanhol. Nós, do Bomba-H, apresentamos a versão original, sendo assim, é a primeira postagem em outra língua que o Bomba – H (Seguidores de História) apresenta ao seu público leitor. O texto pode ser lido sem grandes dificuldades em espanhol, mas, caso seja necessário, utilize a ferramenta do Google Tradutor.
A seguir você tem o comentário de Fidel Castro sobre um caso que esteve em debate em todo o mundo nesta semana – o assassinato de Osama Bin Laden.

Los que se ocupan de estos temas conocen que, el 11 de septiembre de 2001, nuestro pueblo se solidarizó con el de Estados Unidos y brindó la modesta cooperación que en el campo de la salud podíamos ofrecer a las victimas del brutal atentado a las Torres Gemelas de Nueva York.

Ofrecimos también de inmediato las pistas aéreas de nuestro país para los aviones norteamericanos que no tuvieran dónde aterrizar, dado el caos reinante en las primeras horas después de aquel golpe.

Es conocida la posición histórica de la Revolución Cubana que se opuso siempre a las acciones que pusieran en peligro la vida de civiles.

Partidarios decididos de la lucha armada contra la tiranía batistiana; éramos, en cambio, opuestos por principios a todo acto terrorista que condujera a la muerte de personas inocentes. Tal conducta, mantenida a lo largo de más de medio siglo, nos otorga el derecho a expresar un punto de vista sobre el delicado tema.

En acto público masivo efectuado en la Ciudad Deportiva expresé aquel día la convicción de que el terrorismo internacional jamás se resolvería mediante la violencia y la guerra.

Fue por cierto, durante años, amigo de Estados Unidos que lo entrenó militarmente, y adversario de la URSS y del socialismo, pero cualquiera que fuesen los actos atribuidos a Bin Laden, el asesinato de un ser humano desarmado y rodeado de familiares constituye un hecho aborrecible. Aparentemente eso es lo que hizo el gobierno de la nación más poderosa que existió nunca.

El discurso elaborado con esmero por Obama para anunciar la muerte de Bin Laden afirma: “…sabemos que las peores imágenes son aquellas que fueron invisibles para el mundo. El asiento vacío en la mesa. Los niños que se vieron forzados a crecer sin su madre o su padre. Los padres que nunca volverán a sentir el abrazo de un hijo. Cerca de 3 000 ciudadanos se marcharon lejos de nosotros, dejando un enorme agujero en nuestros corazones.”

Ese párrafo encierra una dramática verdad, pero no puede impedir que las personas honestas recuerden las guerras injustas desatadas por Estados Unidos en Iraq y Afganistán, a los cientos de miles de niños que se vieron forzados a crecer sin su madre o su padre y a los padres que nunca volverían a sentir el abrazo de un hijo.

Millones de ciudadanos se marcharon lejos de sus pueblos en Iraq, Afganistán, Vietnam, Laos, Cambodia, Cuba y otros muchos países del mundo.

De la mente de cientos de millones de personas no se han borrado tampoco las horribles imágenes de seres humanos que en Guantánamo, territorio ocupado de Cuba, desfilan silenciosamente sometidos durante meses e incluso años a insufribles y enloquecedoras torturas; son personas secuestradas y transportadas a cárceles secretas con la complicidad hipócrita de sociedades supuestamente civilizadas.

Obama no tiene forma de ocultar que Osama fue ejecutado en presencia de sus hijos y esposas, ahora en poder de las autoridades de Pakistán, un país musulmán de casi 200 millones de habitantes, cuyas leyes han sido violadas, su dignidad nacional ofendida, y sus tradiciones religiosas ultrajadas.

¿Cómo impedirá ahora que las mujeres y los hijos de la persona ejecutada sin Ley ni juicio expliquen lo ocurrido, y las imágenes sean transmitidas al mundo?

El 28 de enero de 2002, el periodista de la CBS Dan Rather, difundió por esa emisora de televisión que el 10 de septiembre de 2001, un día antes de los atentados al World Trade Center y al Pentágono, Osama Bin Laden fue sometido a una diálisis del riñón en un hospital militar de Pakistán. No estaba en condiciones de ocultarse y protegerse en profundas cavernas.

Asesinarlo y enviarlo a las profundidades del mar demuestra temor e inseguridad, lo convierten en un personaje mucho más peligroso.

La propia opinión pública de Estados Unidos, después de la euforia inicial, terminará criticando los métodos que, lejos de proteger a los ciudadanos, terminan multiplicando los sentimientos de odio y venganza contra ellos.

Fidel Castro Ruz

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O Poder da Música


Sem a necessidade de uma orquestra, ou sem a necessidade de infinitas caixas de som, apenas a voz e simples instrumentos. A realidade desses músicos chama atenção para o que Mark Jonhnson, engenheiro de som e criador da idéia, chama de poder da música.

Embora de regiões e culturas diferentes, esses músicos que nunca se viram antes conseguem transmitir um sentimento de dialogo por meio da música. A união de um músico com outro se transforma em arte. As palavras: criatividade, união, músicos resulta nesse vídeo acima, o que legitimamente, o nosso professor Juliano Pirajá, chamaria de “sensacional.”

O nome dado ao projeto, criado por Jonhnson, em inglês se chama Playing of Change, aonde o objetivo não é apenas mostrar o talento musical dessas pessoas, mas principalmente buscar na diversidade a “Paz através da Música”.

Não irei muito além nessa postagem, apenas gostaria de apresentar aos leitores, um pouco sobre “o poder da música”, que embora eu não seja um especialista no assunto coloco a seguinte frase em debate:
"A música é o tipo de arte mais perfeita: nunca revela o seu último segredo"
Oscar Wilde


p.s: a música fala por si só. Caso queira vê outros vídeos do mesmo projeto, segue os links abaixo. Assista, não vai se arrepender...


Link 1
Link 2
Link 3

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Mémorias da Segunda Guerra, com Theodore Van Kirk

Caros leitores, nessa postagem o blog Bomba-H, apresenta uma matéria retirada de outro site, denominado de Geneton. Todos devem visitar o site, pois como essa matéria, existem ainda muitas outras curiosidades e textos super interessantes. A entrevista foi realizada pelo jornalista Geneton Moraes Neto ao piloto do Enola Gay – o avião que conduzia a primeira bomba atômica usada numa guerra, em agosto de 1945, fator decisivo para o fim da segunda guerra mundial. Theodore Van Kirk revela detalhes daquela madrugada em que teve que sacrificar milhões de japoneses por um “bem maior”, o fim da grande guerra. Tal fator nos insere num debate não só ético, mas principalmente para nós historiadores, um debate sobre a memória de um dos maiores eventos do século XX e da experiência humana.

THEODORE VAN KIRK, NAVEGADOR DO AVIÃO QUE JOGOU A BOMBA ATÔMICA EM HIROSHIMA

O HOMEM QUE PARTICIPOU DAQUELE QUE JÁ FOI CONSIDERADO “O MAIS VIOLENTO ATO DA HISTÓRIA DA HUMANIDADE” - O LANÇAMENTO DE UMA BOMBA ATÔMICA SOBRE A CIDADE DE HIROSHIMA, NO JAPÃO – DIZ QUE HOJE SE LEMBRA DAS VÍTIMAS “UMA VEZ POR MÊS,EM MÉDIA”

Eis um dos cavaleiros do apocalipse: um homem de oitenta e dois anos colhe peras no pequeno pomar que cultiva no jardim de casa, num subúrbio de São Francisco, Califórnia. Oferece-me a fruta. “É boa e doce”. Faz sol. O azul escancarado do céu só é maculado pelo rastro deixado por um avião a jato.

Enquanto saboreia a pêra que acabou de colher, ele se dirige, a passos lentos, para uma cadeira na beira da piscina. Os raios de sol acentuam a brancura dos cabelos ralos. O pomar em casa e o conforto sugerido pela piscina podem dar a impressão de que o homem que colhe peras é um milionário. Não é. O homem que colhe peras é apenas um militar aposentado.

A biografia deste octogenário não seria diferente da de tantos outros veteranos de guerra se ele não tivesse levantado vôo, na madrugada de agosto de 1945, a bordo do Enola Gay – o avião que conduzia a primeira bomba atômica usada numa guerra. Ao embarcar no Enola Gay, Van Kirk entrou para a História – para o bem e para o mal.

Os que criticam o uso da arma atômica chamam os militares que participaram do ataque de mensageiros da morte. Os que encontram uma justificativa histórica chamam-nos de guerreiros da paz. A polêmica durará séculos.

A missão que Theodore Van Kirk cumpriu há seis décadas mudou a história da humanidade. Todos os superlativos já foram usados para descrever a enormidade do ataque nuclear a Hiroshima. “Aquele foi o ato mais violento da história da humanidade, mas trouxe um fim para a Segunda Guerra” - diz Bob Greene, autor de um livro recém-lançado, “Duty: a Father, His Son and The Man Who Won The War” - um jornalista que desde criança era fascinado pela Missão Hiroshima.

Que fantasmas povoam hoje os dias calmos deste homem ?

Se ele não tivesse embarcado há meio século para a Missão Hiroshima , certamente não teria o descanso dos seus dias de aposentadoria quebrado pela impertinência de repórteres que o procuram para tirar velhas dúvidas.

É o que faço agora. Van Kirk nos recebe com um sorriso largo , uma pergunta bem-humorada (“vocês conseguiram chegar ? Pensei que tinham ficado presos no engarrafamento !”) e a disposição de abrir o armário onde se escondem os fantasmas de Hiroshima.

Pergunto se ele levou algum objeto pessoal quando embarcou no vôo histórico. Van Kirk me surpreende com a resposta: o único “objeto pessoal” que ele levou a bordo do avião que carregava a bomba atômica foi uma Bíblia. Se precisasse de conforto espiritual durante a Missão, poderia recorrer àquela pequena relíquia familiar:

- A única peça pessoal que carreguei comigo foi uma Bíblia – que eu tinha recebido de minha mãe e de meu pai. Era pequena. Cabia no bolso. Durante o vôo, eu me lembro de ter tocado a Bíblia com a mão. Mas não cheguei a ler nenhuma passagem. O exemplar da Bíblia não tinha meu nome, nada que pudesse identificar quem eu era. Se o avião por acaso fosse derrubado em território inimigo, os japoneses não poderiam me identificar pela Bíblia. Terminei perdendo-a, tempos depois.

Além do pequeno exemplar da Bíblia, Van Kirk carregava consigo uma pistola automática – que poderia ser usada numa situação extrema:

- Não havia rifles a bordo. Mas cada um de nós tinha uma pistola automática, calibre 45. Carreguei uma comigo, na missão rumo a Hiroshima. Se fôssemos derrubados sobre território japonês, poderíamos usar as pistolas para nos proteger ou – Deus nos livre – para destruir a nós mesmos, se necessário (Van Kirk evita a palavra “suicídio”). Mas, se algo desse errado na missão, a cena seria tão catastrófica que teríamos pouca chance de usar as pistolas.

Ninguém participa impunemente de uma missão tão devastadora.

Van Kirk orgulha-se de ter contribuído para o fim da guerra. É um fato histórico indiscutível. O uso das armas atômicas – primeiro, em Hiroshima e depois em Nagasaki - obrigou o Japão à rendição incondicional . Se o Japão continuasse em guerra, seria invadido por terra. O número de mortos poderia ter sido maior do que o causado pelas bombas – dizem os estrategistas. Mas o preço do uso das armas atômicas foi altíssimo. O horror causado pelo cogumelo atômico jamais se dissipou. Calcula-se que cem mil pessoas tiveram morte instantânea, nos dez segundos seguintes à explosão. As cicatrizes deixadas pelas explosões atômicas vão atravessar os tempos.

Que tipo de pensamento terá passado pela cabeça de Van Kirk quando ele viu Hiroshima pela primeira vez, ainda a bordo do Enola Gay?

Van Kirk faz uma pausa, reconstitui o cenário do apocalipse:


- Era um dia perfeitamente claro. A gente podia ver a cidade a milhas de distância. A primeira coisa que me veio à cabeça foi a de que nossa missão tinha sido bem sucedida: nós tínhamos encontrado a cidade, cumprimos os horários previstos, tudo estava perfeito. O primeiro pensamento que tive depois da explosão da bomba foi de alívio. Porque aquilo era algo que tinha exigido um treinamento que durara meses. O segundo pensamento que tive foi: a guerra acabou!
A História dos tempos de guerra não é feita apenas de ordens militares grandiosas e decisões sem rosto. Há sempre alguém que cumpre as ordens. As decisões tomadas no Salão Oval da casa Branca pelo Presidente dos Estados Unidos podem exigir - por exemplo – que um grupo de militares entre num avião de madrugada, invada o espaço aéreo japonês, mire numa cidade lá embaixo e abra as comportas para que seja lançada, naquele alvo povoado por homens, mulheres e crianças, a arma mais mortífera já concebida pelo homem- uma bomba atômica.

O avião Enola Gay levanta vôo da ilha de Tinian, no Oceano Pacífico, às 2 e 45 da manhã de seis de agosto de 1945 rumo a Hiroshima, com doze homens – e uma bomba atômica a bordo. A bomba explode às 9h16. Cem mil pessoas morrem instantâneamente na explosão. O número de vítimas chegaria a 145.000 no final de 1945.

"Numa cidade de 245 mil habitantes, cerca de 100 mil haviam morrido ou iriam morrer em breve; outros 100 mil estavam feridos. Pelo menos 10 mil feridos se arrastaram até o melhor hospital de Hiroshima, que não tinha condições de abrigá-los, pois contava apenas seiscentos leitos e todos já estavam ocupados”, diria o jornalista americano John Hersey em "Hiroshima", texto clássico sobre o bombardeio.

“Nuvens de fumaça, próximas e distantes, despontavam pouco a pouco por entre a poeira. O reverendo se perguntou como um céu silencioso ter causado tanta destruição (...) Zonzos de dor, erguiam os braços, como se carregassem alguma coisa com as duas mãos. Alguns vomitavam, sem parar de andar. Muitos estavam nus ou envoltos em farrapos”

A Missão Hiroshima foi o momento mais grave vivido por Van Kirk. Mas, para decepção dos fanáticos por guerra, ele constata:

- A guerra é mais interessante na TV do que na vida real. Guerra pode significar cinco minutos de extrema atividade – e um ano de monotonia....

Não havia lugar para monotonia a bordo de um avião que voava rumo ao Japão para cumprir uma missão que – não é exagero dizer - entraria para a história da humanidade:


- Havia a possibilidade de a bomba explodir no avião, o que seria desastroso. Poderíamos ter problemas no motor. Nós estávamos preparados para o pior – que, felizmente, não aconteceu. Não estávamos preocupados com os japoneses durante o vôo em direção a Hiroshima, porque sabíamos que eles não tinham como nos alcançar naquela altitude – confessa Van Kirk . Mas sabíamos que nosso avião seria atingido por ondas provocadas pelo deslocamento de ar, depois da explosão. Disseram-nos que, depois da explosão, iríamos sofrer o impacto. Houve até especulações sobre o risco de a explosão atingir o nosso avião. De volta à base, cheguei a ouvir de um dos cientistas o seguinte: “Quando vocês partiram para a missão, pensei que aquela seria a última vez que eu os veria....”. A turbulência durou pouco. O vôo de volta pôde continuar.

O calor que se espalhou por Hiroshima e Nagasaki era o de “mil sóis”. Seres humanos “se desintegraram sem deixar qualquer vestígio”. O inferno se instalou na terra. O grande paradoxo é que tanta destruição foi cometida – em última instância - em nome da paz – para acabar com a guerra. O Japão se rendeu. A Segunda Guerra Mundial acabou ali. Mas Hiroshima e Nagasaki entraram para sempre na História como provas de que o homem é tecnicamente capaz de destruir a vida sobre a terra. Basta tomar a decisão.

“Os cientistas tinham dito que a temperatura no centro da explosão seria mais forte que a do sol – diz Van Kirk. Quando a bomba explodiu lá embaixo, nós já estávamos nos afastando de Hiroshima. Não havia janelas na parte traseira do avião. Usávamos equipamentos para proteger nosso olhos. Ainda assim, pudemos ver um clarão parecido com o de um flash fotográfico numa sala escura. Hiroshima estava inteiramente encoberta por uma fumaça negra e por poeira. Não se via a cidade. A nuvem que se formou tinha várias cores: eram tons de cor púrpura, rosa, branca – todos os tipos de cores".

A visão era bonita? – pergunto ao navegador.
“Não se pode chamar algo assim de belo. Era algo mais horrível do que bonito”.

Adiante, ele aprofunda a descrição:
- Minha primeira reação, ao ver as primeiras imagens de Hiroshima, foi de surpresa: como aquilo tudo pôde ser feito com apenas uma bomba? Aquilo reforçou a nossa certeza de que não havia meio de os japoneses resistirem a uma arma daquele tipo. O Japão iria se render logo depois.


O que é que a palavra Hiroshima significa hoje para este homem?
“Para mim, Hiroshima significa, hoje, a ressurreição de uma cidade que foi destruída”, diz Van Kirk. “Hiroshima é também a prova de que o homem pode corrigir seus erros. Não é que a bomba atômica tenha sido um equívoco. O bombardeio foi perfeitamente legítimo como ato de guerra. A população de Hiroshima é hoje devotada à paz. É uma mensagem que vai para todo o mundo”.

Que resposta o navegador do Enola Gay dá, hoje, aos críticos da Missão Hiroshima, gente que condena o uso de armas atômicas?
 - Críticos da missão atômica não entendem a situação que se vivia naquele momento específico e qual a alternativa que existia ao uso da bomba. O que aconteceu é que a bomba salvou vidas. Se não tivéssemos jogado a bomba, a guerra não teria terminado em agosto. Teria se estendido por um, dois meses. Durante este período, o Japão estaria exposto a um horrível bombardeio – com grande perda de vidas. Embora tenha havido uma horrível perda de vidas em Hiroshima – e também em Nagasaki – a alternativa seria pior : basta levar em conta o número de vidas que teriam sido perdidas se a guerra continuasse.

Ao contrário do esperado, o Japão não se rendeu depois da explosão da bomba em Hiroshima. Os Estados Unidos decidem,então, lançar uma segunda bomba atômica. O alvo era a cidade de Kokura. Mas, como a cidade estava encoberta por nuvens, a bomba foi jogada em Nagasaki. O Japão finalmente se rende. O documento da rendição incondicional é assinado no dia 2 de setembro

Pergunto se Van Kirk já teve pesadelo com Hiroshima:
- Nunca. Há quem me critique pelo fato de eu nunca ter tido pesadelo com a bomba atômica. Mas devo dizer que não tive. Porque acho que o que fizemos em Hiroshima foi apropriado.

E ele faria tudo de novo?
- Eu faria – diz Van Kirk , sem titubear. Faria tudo de novo, se as circunstâncias que a gente tinha ali se repetissem : um conflito que se estendia por anos, com muita matança, com feridos, com o país inteiro em estado de guerra, não apenas as forças armadas. Mas creio que as circunstâncias não se repetiriam. Não acredito que nenhuma outra guerra dure mais que uma semana ou duas.

Se tivesse tido a chance de falar aos habitantes de Hiroshima momentos antes do lançamento da bomba, o que Van Kirka diria a eles?
- Eu diria: lamento que nós tenhamos de bombardear a cidade. É um ato necessário. Vocês não aceitaram os termos da rendição incondicional – que nós oferecemos. O resultado é este.

Aos que dizem que o ataque a Hiroshima é discutível porque atingiu indiscriminadamente alvos civis, Van Kirk responde que não : Hiroshima era a sede das instalações militares japonesas encarregadas de defender o país em caso de invasão. Havia na cidade pelo menos cem “alvos militares”. Mas a população civil pagou o preço.

Van Kirk acha absurda qualquer comparação entre o ataque atômico ao Japão – um ato de tempos de guerra – e, por exemplo, o ataque dos guerreiros de Bin Laden ao World Trade Center. O sentimento antiamericano, aguçado na era Bush, deu margem a comparações desse tipo. 

 - Quando vi o ataque ao World Trade Center me perguntei: que tipo de gente pode fazer algo assim? É algo que não consigo imaginar : que eles tenham achado que algo de bom poderia sair dali. Quando houve Hiroshima, nós estávamos em guerra. Havia legitimidade. Não apenas nós estávamos envolvidos na guerra,mas todo mundo – os britânicos, os russos, todos. Mas o ataque ao World Trade Center foi feito em tempos de paz. Como puderam fazer? Não consigo entender. Eu não o faria – nunca. Nunca.

Tento provocá-lo : o senhor iria a uma guerra hoje para capturar Bin Laden?

- Sim. Mas não creio que seja necessária uma guerra.

Vida de personagem da história é assim: o navegador do avião que jogou a bomba atômica oferece ao repórter um autógrafo sobre uma foto do Enola Gay. A relíquia vai para meus arquivos implacáveis. Pai de dois filhos e duas filhas, avô de sete netos, Van Kirk vive sozinho, com a mulher parcialmente inválida.

Em seus momentos de solidão, Van Kirk hoje se lembra das vítimas da bomba?

- Eu hoje me lembro das vítimas com menos freqüência do que antes. Mas a cada vez que vejo uma foto, um filme ou uma menção de alguém, me lembro das vítimas da bomba atômica. É algo que acontece menos e menos, à medida em que envelheço e o tempo vai passando. Hoje, devo me lembrar das vítimas uma vez por mês. Pode acontecer de eu me lembrar das vítimas duas vezes em um mês e, em seguida, passar três meses sem me lembrar. Mas a média é de uma vez por mês.

Van Kirk fica em silêncio. Nessas horas, ele parece rever intimamente os fantasmas de Hiroshima : o pesadelo da guerra, o imenso cogumelo atômico, a decisão dramática, a destruição indizível.

É sempre assim: quando uma notícia qualquer de TV fala da guerra ou quando um repórter vem de longe para ouví-lo sobre o dia histórico, Van Kirk embarca numa viagem feita de palavras, lembranças e silêncios - como agora. Não se recusa a falar. Não se esconde. Porque, desde o momento em que entrou no Enola Gay para voar rumo a Hiroshima, ele sabia que aquela viagem não acabaria nunca.


Texto retirado do site: Geneton.com.br

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Atenção Seguidores de História

Olá meus amigos e seguidores do Bomba – H.
  
Hoje viemos aqui para levantar uma enquete acerca do jornalzinho “O coliseu”. Na ultima reunião de representante o professor e coordenador Fábio Santa Cruz, manifestou seu interesse de passar a direção do jornalzinho aos acadêmicos. Estamos com esta postagem para saber de vocês, seguidores do Bomba – H, o que acham que falta para o nosso jornalzinho, “O coliseu” apresentar maior qualidade.
  • O que deve permanecer e o que é necessário mudar? 
  • Quais as propostas de um jornalzinho para a comunidade acadêmica?
 Participe, contribua com a sua opinião, desperte o espírito critico que deve existir na comunidade acadêmica.  Contamos com o apoio de todos vocês.

Bomba – H

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Um breve esboço sobre o feminino na sociedade colonial brasileira


“porque mulher e fazenda são as duas coisas que mais apartam os homens do céu, e os dois laços do demônio em que mais almas se prendem e se perdem.” (Vieira, padre Antonio. Sermões. Ministério da Cultura. Fundação Biblioteca Nacional. Departamento Nacional do livro.)

A investigação dos elementos literários como um mecanismo da expressão de determinada sociedade é completamente viável. Avaliar a maneira de escrita, o teor de determinados discursos, a compreensão de mundo, a avaliação da própria existência, a construção dos conceitos e da cultura, além de demonstrar as relações sociais moldadas pela cultura de cada sociedade, são elementos passíveis de serem investigados com a utilização de obras literárias. Compreender a literatura não como uma manifestação prática da sociedade, mas como uma manifestação que perpassa várias seleções, de modo a ser avaliada como pertencentes ao campo das ideias de um povo e que pode avaliar (com a devida apuração crítica) as relações sociais presentes em determinada cultura. Esse é o cuidado que se deve ter no trato do elemento literário para que possamos compreender as mutações que o mesmo sofreu ao longo do tempo. Esta incursão hermenêutica nos possibilita acessar, o que os alemães denominariam de zeitgeist, o espírito de uma época. O presente trabalho propõe-se, por intermédio da literatura barroca de padre Antônio Vieira, perceber a condição do feminino ao longo do período colonial no Brasil e, com a ajuda de Emanuel Araújo, perceber uma série de conceitos formados acerca das mulheres durante o referido período.

Primeiramente proponho aqui um esforço para compreender algumas características do barroco que o definem como tal, de modo a fazer também, um diálogo com o contexto histórico da época do seu afloramento. O barroco apresenta como sua característica principal o antagonismo e este fator pode ser entendido se compreendermos o período de nascimento do barroco. O barroco se desenvolve no seguinte contexto histórico: após as reformas religiosas a Igreja católica perde um pouco dos seus poderes com a ascensão de um novo discurso que fez frente ao velho e agora inútil discurso cristão. Mesmo com a diminuição de seus poderes, a Igreja continuou com um discurso influente frente à sociedade européia. A arte barroca surge nesse contexto e expressa todo o contraste deste período: a espiritualidade e o teocentrismo da Idade Media, com o racionalismo e antropocentrismo do renascimento. Compreendendo o contexto histórico fica mais claro o forte antagonismo presente na arte barroca, mas outras características, que julgo importante, devem ser apresentadas. A arte barroca destaca-se também pela utilização de alegorias e imagens de forte poder emocional com uma intenção explícita de tocar o público, estilizar e ficcionalizar o real. Dividido entre solicitações terrestres e imposições de ordem religiosa o homem barroco é um ser em permanente conflito.

Após essa dupla introdução, proponho agora envolver-me mais no recorte deste trabalho: a condição da mulher ao longo do período colonial sob a ótica barroca dos Sermões do padre Antônio Vieira, contando com o apoio do trabalho Historiográfico de Emanuel Araújo.

Na sociedade ocidental amparado por uma filosofia greco-judaica a mulher era vista como uma pecadora em potencial e que, portanto, deveria ser afastada das atividades sociais para que a sua natureza não prejudicasse os homens mais uma vez. A literatura barroca do período colonial brasileiro expressa de maneira clara a posição da mulher na referida sociedade. 
“Na sociedade colonial a mulher era vista em tentação permanente e, assim, podia ser potencialmente adultera, feiticeira, enganadora, sibarita, repositório enfim de todos os males já presentes desde a primeira mulher, Eva, a Eva tentadora”. (Teatro dos vícios PP.213 - Emanuel Araújo)
A conhecida frase “lugar de mulher em casa” que vigora até os dias atuais demonstra o quanto esta filosofia se fez e se faz presente na sociedade brasileira. Assim como Portugal e quase toda cultura ocidental, diretamente influenciada pela cultura hebraica, o Brasil é uma sociedade patriarcal, onde o homem é a cabeça da família e a mulher é submissa às vontades deles.


Eva, além de cometer o pecado ela convenceu Adão a comer o fruto proibido o qual expôs toda humanidade ao pecado original e o castigo foi à expulsão do paraíso. Portanto Eva não é apenas “a pecadora”, mas também uma ameaça à vida social e que, por isso, ela deve ficar reclusa em casa para não expor os homens, novamente, ao pecado. Outra concepção sobre a mulher expressa no barroco era a da sua natureza de fácil convencimento, portanto, elas eram mais facilmente atraídas pelas tentações do demônio o que torna a mulher uma ameaça constante à sociedade. Se a primeira mulher criada diretamente por Deus foi persuadida pela serpente, quem dirá as mulheres do período colonial que são em maior quantidade e mais vulnerável à tentação do maligno.


“No Paraíso havia uma só árvore vedada; no mundo há infinitas” (padre Antônio Vieira “sermões da quinta feira da quaresma”. Na misericórdia de Lisboa. Ano 1669 pp.184).
A mentalidade do período apresenta a necessidade de reclusão do feminino no espaço doméstico, no entanto, o feminino não deixa de ter participação na sociedade colonial brasileira. Uma série de documentações, com diários, entre outras, apresenta a relação da mulher com os escravos, no processo de educação das crianças, nas relações privadas com seus cônjuges, entre outras mais. A longo do período colonial foram elaborados uma série de elementos de reclusão do feminino, entre eles, o de denegrir a mulher como “puta” ou outros adjetivos baixos para aquelas que possuíssem uma vida social mais ativa. A mulher que possuísse uma vida social mais ativa era mal vista pela sociedade, então, concluímos que, para aquelas que tentassem participar das atividades sociais teriam que enfrentar uma série de “pré-conceitos ainda mais intensos em uma sociedade patriarcal como a brasileira.



A manutenção deste discurso a favor da reclusão feminina é encontrada nos Sermões de um dos maiores ícones da literatura barroca, padre Antônio Vieira. Antônio Vieira é incisivo em seus sermões em reafirmar a posição da mulher na sociedade. Apesar de possuir um papel de mãe e, até mesmo foi a “mãe do filho de Deus, uma mulher”, o feminino continua sendo submisso aos pais, irmãos e, posteriormente, aos seus maridos.
“Tenta e engana o demônio aos filhos de Eva com a mesma traça e com a mesma astúcia com que a enganou a ela. Como a fé é o fundamento da graça, contra a fé vomitou a serpente o primeiro veneno, e na fé armou o laço à primeira mulher. Mas como? Porventura intentou persuadir-lhe que não cresse em Deus, ou duvidasse da sua divindade? Tão fora esteve disto o demônio, que antes ele ratificou a Eva essa mesma crença de Deus, uma e outra vez, supondo sempre que o que lhe pusera o preceito, era Deus: Cur praecepit vobis Deus? E o que lhe ameaçara a morte também era Deus: Scit enim Deus quod in quocumque die comederitis ex eo. Pois em que esteve logo a tentação contra a fé? Não esteve em que Eva não cresse o que Deus era; esteve em que não cresse o que Deus dizia. Deus disse a Eva e a Adão que, no ponto em que comessem da árvore vedada, haviam de morrer.” (Vieira, padre Antônio. Sermões. Ministério da Cultura. Fundação Biblioteca Nacional. Departamento Nacional do livro.)

“Tinha roncado e barbateado Pedro que, se todos fraqueassem, só ele havia de ser constante até morrer, se fosse necessário, e foi tanto pelo contrário, que só ele fraqueou mais que todos, e bastou a voz de uma mulherzinha para o fazer tremer e negar.”(Vieira, padre Antônio. Sermões. Ministério da Cultura. Fundação Biblioteca Nacional. Departamento Nacional do livro.)
A posição da mulher na sociedade brasileira faz parte, também, da construção identitária do Brasil. As palavras incisivas de padre Antônio Vieira e a ironia de Gregório de Matos perpetuaram pela sociedade e vigorou até meados do século XX e ainda é presente em nossa sociedade em pleno século XXI. É recorrente vermos nos noticiários pesquisas acerca da condição da mulher no mercado de trabalho, demonstrando que as mulheres em relação aos homens não possuem a mesma possibilidade de sucesso profissional. Mesmo com o crescimento das mulheres chefes de família o discurso do período colonial ainda vigora, aquelas tem que enfrentar uma série de bloqueios sociais para conseguirem maior espaço profissional, social, entre outros. O movimento feminista de meados do século XX irá questionar e reivindicar o espaço do feminino na sociedade brasileira. Amparado nas ideias de nomes como Simone de Beauvoir, Judith Butler, o movimento feminista alcançara inúmeras ramificações no final do século XX e início do século XXI. A principal inovação das ideias feministas está na concepção da categoria mulher como uma construção cultural, de modo a estabelecer um diálogo entre natureza/cultura, sexo/gênero, como afirmara Simone de Beauvoir ela não nasceu mulher se tornou mulher. As teorias feministas vem questionar as concepções advindas da modernidade acerca do feminino e ganha ainda mais vigor com a teoria queer, uma teoria que posiciona o gênero como um construto social, afirmando que a identidade sexual do indivíduo não é algo biológico e sim cultural e social.


Concluindo este, devo relatar que foi de intenso prazer fazê-lo. É interessante perceber como é cunhado aquilo que chamamos de “pré-conceito”, e como os mesmos permaneceram arraigados na sociedade brasileira ao longo do tempo. A reclusão das mulheres continua recorrente na sociedade atual e como os mecanismos de exclusão diminuíram com o advento do século XXI nos vemos cada vez mais diante de crimes contra as mesmas. Os incisivos discursos contra as mulheres sofreram intensas transformações e que nos deixa uma inquietação. Qual é o lugar da mulher brasileira na sociedade contemporânea?

Lucas Alves

Bibliografia:

ARAÚJO, Emanuel. O teatro dos vícios. Transgressão e transigências na sociedade urbana colonial. Rio de Janeiro/Brasília, José Olympio/UnB, 1993.

Vieira, padre Antonio. Sermões. Ministério da Cultura. Fundação Biblioteca Nacional. Departamento Nacional do livro.

 ROSA, Maria da Gloria Sá. Cultura, literatura e língua nacional. Ed. Do Brasil, 1976-78.

BUTHER, Judith. Problemas de gênero Feminismo e subversão da identidade. Trad. Renato Aguiar. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003.