sábado, 10 de setembro de 2011

Badaró e Bomba - H
A parceria que não podia faltar

O boletim Badaró, assim como o blog da turma do terceiro ano: “Bomba-H”, é uma iniciativa digna de elogios, pois trata-se de um espaço em que nós acadêmicos e universitários do curso de História podemos disponibilizar artigos, textos e informações da “realidade” (entre aspas) que nos cerca.

No entanto o Badaró até a sua terceira edição não tinha a pretensão de ser publicado também na internet. Mas essa perspectiva começou a ganha ênfase quando a terceira edição foi publicada e distribuída, pois tamanha foi a distribuição que muitos acadêmicos, inclusive nós editores, ficaram sem seu exemplar. Portanto começamos a nos indagar: porque não tornar o Badaró também visível ao publico virtual? Afinal de contas todos poderiam ter acesso e além disso nós editores do Badaró e, os mesmos, responsáveis pelo Bomba – H queremos que esses textos produzidos estejam disponíveis também ao publico fora de nossa Unidade acadêmica de Formosa. Portanto, apresentamos o boletim opinativo e informativo Badaró que é produzido por alguns alunos do terceiro ano atual de 2011.

A seguir você poderá conferir a terceira edição do Badaró, cujo o tema é transparência. Conforme novas publicações, também iremos disponibilizá-lo no Bomba-H. E lembre-se qualquer sugestão ou critica deixe seu comentário ou envie o seu e-mail para: seguidores.historia@gmail.com

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Brasil: três tenores



Abre a cortina do passado

Tira a mãe preta do cerrado

Bota o rei congo no congado

Canta de novo o trovador

A merencória à luz da lua

Toda canção do seu amor

Quero ver essa dona caminhando

Pelos salões arrastando

O seu vestido rendado...

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Considerações sobre:
Paraguai e Uruguai de 1870 a 1930

Paraguai e Uruguai são dois países da região platina marcados por diversos conflitos. Tanto no campo político-partidário quanto cívico entre outros. Estes sofreriam entre o final do século XIX e início do século XX diversas transformações. Desde o conflito bélico da Guerra do Paraguai e suas conseqüências, a intromissão brasileira e argentina em assuntos internos, períodos de estabilidade político, relativo crescimento econômico, dependência do capital estrangeiro até os reflexos da Primeira Guerra Mundial e a Grande Depressão.

As disputas por supremacia – Brasil e Argentina – na região impactaram diretamente nos respectivos países. O império brasileiro, consideravelmente estável após o fim das revoltas internas, vislumbra aumentar sua influência. Inclusive por intervenções. Feito a ofensiva contra Oribe e Rosas. A Argentina, liderada por Juan Manuel Rosas, se colocava, também, com intentos intervencionistas. Manuel Oribe, ministro da guerra Uruguai, pretendia a manutenção de um aliado no governo para consolidar a supremacia argentina na região do Prata. Tais ações desaqueciam os anseios brasileiros. O Brasil se aliou aos opositores nos dois países para derrubar o ditador argentino em 1852.


Após a matança sem precedentes da Guerra da Tríplice Aliança os aliados Brasil e Argentina retomariam certas rivalidades. A mais prejudicada, a República paraguaia, jamais se recuperaria do desastre militar de decorrências catastróficas: sua população masculina foi praticamente dizimada e metade de seus habitantes mortos (de 221 mil sobreviventes apenas 28 mil eram homens), ainda a ocupação aliada, intromissão estrangeira, cofres vazios e economicamente arrasada. A destruição da economia foi de tal manta que o país apenas recebeu de forma matizada o impacto que teve na consolidação das economias agroexportadoras da Argentina e do Uruguai, a introdução de fatores produtivos como a imigração européia e os capitais estrangeiros.

Quanto ao Uruguai tradicional, caracterizado dentre outros aspectos pelo comércio de gado e pelo caudilhismo possuía transportes mais ágeis, favorecido pela mobilidade de sua principal mercadoria (gado), pelo uso de barcos a vela e a vapor no rio Uruguai (beneficiou a comunicação com a capital). Era extremamente dependente do comércio e com poucas desigualdades e tensões sociais. “Ao contrário, sob alguns aspectos [...] destacava-se numa América Latina caracterizada no século XIX por classes sociais fortemente diferenciadas”. Mas, por outro lado, a luta civil também era endêmica. Coberto por disputas dos partidos Colorados e Blancos. Ao mesmo tempo, tal qual o Paraguai sofrera com a intromissão do Brasil e Argentina na política interna. Parceiros na guerra da Tríplice Aliança. Conflito que favoreceu alguns comerciantes, muitos estrangeiros. Para o Uruguai as repercussões da guerra foram menores, apesar de a situação nesse país ter sido o elemento catalisador das contrações que levaram ao conflito .

Nessa perspectiva ainda, no Paraguai do pós-guerra a nova Constituição promulgada deveria inviabilizar qualquer forma de ditadura. Porém, perenes articulações implicariam graves tensões; como o assassinato do governo Juan Batista Gill em 1877 e a tomada do poder pelo general Caballero. Vale ressaltar, nos dois países o elemento decisivo encontrava-se no Exército. Da mesma forma, a manutenção colorada uruguaia contava com respaldo militar. No Paraguai, o partido também conhecido como colorado se manteria ininterruptamente no poder de 1880 a 1904. Com o golpe militar a estabilidade política seria dissolvida e os acentuados problemas sociais do povo seriam margeados.

A oposição paraguaia formou-se, primeiramente, como partido oficial com a Associação Republicana Nacional. Contrários ao governo Caballero e seu partido colorado (contrário ao centro Democrático, tido como partido Azul). Embora houvesse um contraste político partidário essas correntes possuíam muitos interesses em comum. Ao Uruguai o advento da oposição foi acompanhado por fortes coerções. O aparecimento de uma frente oposicionista composta das facções ‘legalistas’ dos blancos e colorados provocou uma reação autoritária do general Máximo Santos levando-o a uma demasiada repressão. A imposição do governo militar, no qual Santos era o segundo a exercer o poder, afastou também os principistas, grupo que se separava dos partidos tradicionais, constituído basicamente por jovens intelectuais, provenientes de famílias antigas, já não mais tão ricas como dantes. “Guiados por um liberalismo doutrinário extremado [...] defendiam ardorosamente um ordem legal baseada em idéias e modelos europeus na qual eram fundamentais a desconfiança do Estado e uma crença arraigada nos direitos do indivíduo.” Entretanto, com Santos o militarismo não conseguiria sobreviver a prosperidade que o mesmo contribui para fomento da modernização do país.

No Paraguai o presidente civil Juan Gualberto Gonzales cai (1894) traído pelo exército para subida de Juan Bautista Egusquiza. Este último tentara conciliações entre os moderados dos respectivos partidos. Mas, tal como outros, passaria por crises sucessórias devido ao desenho da constituição (não permitia reeleição) e outros. Nos anos 1904 a 1923 o liberalismo e a anarquia protagonizaram. Antigas brigas, nunca totalmente solucionadas reacendiam, com políticas de abstencionismo por parte dos colorados. Sempre com cortejos ao Exército. Em contraste o Uruguai tentava amenizar seus transtornos com a política de co-participação.

O batlismo, contributo à consolidação democrática, dominava a vida política uruguaia no período. José Batlle y Ordónez, desde sua primeira eleição em 1903 até sua morte em 1929, controlou a política no Uruguai. Sendo um personagem relevante para modernização do país por meio de suas reformas. Além de atuar de modo avesso aos regimes trabalhistas autocráticos da época, ao apoiar as reivindicações da classe média e trabalhista. Trouxe uma pacificação incontestável, apesar das insatisfações blancas. Os membros da elite dirigente, conhecidos como batlistas, “eram orientados por uma ideologia de cunho reformista e modernizador forjada nos últimos trinta anos do século XIX nas salas de aulas do Ateneu de Montevideu e nos círculos jornalísticos da capital uruguaia” . Ao mesmo tempo, os batlistas não estiveram isentos de revoltas.

Novas e velhas abstinências seguiam-se no Paraguai. Manuel Gondra, dos radicais, assumiu o poder por um breve momento, até novo golpe derrubá-lo, envolvendo em desordem o país. Quando as eleições foram realizadas em 1910 os colorados e cívicos se abstiveram, de tal modo que os radicais elegeram seu candidato, sem oposição. “A primeira administração de Gondra tinha apenas dois meses quando de repente o coronel Jara se insurgiu e afastou-se do cargo. O golpe desencadeou um dos períodos de anarquia na história do Paraguai. Era questão de tempo a derrubada de Jara.” Desta vez o general chefe do exército tão importante em outrora seria desconexo da cena política. Em julho, um segundo levante, chefiado por uma coligação de cívicos e colorados, impetraria afastá-lo do poder.

Liberato Rojas e Eduardo Scharer adotaram posturas diferentes de seus antecessores. Foi um período de relativa estabilidade. De benefícios pela demanda da Primeira Guerra Mundial. Com novas eleições viria a figura de Franco (1916) que efetuou reformas relevantes de caráter eleitoral. Sua morte súbita levaria também os “bons tempos”. Sopravam novamente os ventos fortes de intrigas políticas, tramóias, renúncias, esquemas e exílios. De mesmo modo, a economia uruguaia cresceu com a demanda da Grande Guerra. Favorecendo a modernização do país (período de forte migração estrangeira, fato que por muito a via cessado). Tal crescimento se dava principalmente pela indústria frigorífica, o capital estrangeiro e a pecuária. Mesmo com certa “industrialização” no período as economias platinas permaneceram agrárias. A estrutura fundiária não modificou, uma vez que se manteve a propriedade latifundiária.

A Primeira Guerra e a crise financeira de 1929 repercutiram diretamente nas economias dos países latino-americanos. Inclusive debruçaram-se sobre fatos inéditos: a dificuldade de importação de produtos europeus e estadunidense e o dever de nutrir o mercado interno. Muitos se beneficiaram com a necessidade de abastecimento da Europa no período. Já com a crise foi preciso incentivar o processo de fabricação de bens de consumo. A crise de 1929 lançou as economias latino-americanas ao colapso. O volume do comércio internacional diminuiria fortemente, os investimentos estrangeiros faltos, as importações dos mais variados produtos dificultadas. Essa conjuntura acumularia falências, desemprego e reduções salariais.

Revoluções e ditaduras estabeleceram-se em um contexto de persistência de uma economia agroexportadora majoritariamente dependente da área central do capitalismo. A questão social permanecia problemática no Uruguai e Paraguai. No entanto esse último tivera que lidar ainda com intrigas diplomáticas e o tratamento da Guerra do Chaco (1923-1932). Gondrista de ponta, Eusebio Ayala, eleito interinamente tinha problemas –feito a condição de miséria da população, a ameaça externa vizinha e a permanente questão agrária. Foi importante no processo das eleições, inclinado à realização seguinte a seu mandato de uma disputa presidencial inédita no país. Outros problemas tinham o Uruguai, reformas limitadas, a questão da co-participação, exigências e propostas trabalhistas cada vez mais intensas.

Nas Américas, na óptica de Hobsbawm, as instituições políticas adequadamente democráticas no período entreguerras a situação seria mais confusa, mas não chegava a sugerir um avanço geral das instituições democráticas. A lista de Estados consistentemente e não autoritários no hemisfério ocidental era curta: Canadá, Colômbia, Costa Rica, os EUA e a hoje esquecida “Suiça da América Latina”, o Uruguai. Conhecido como suíça “sul-americana” devido sua estabilidade política e outros aspectos se comparada aos americanos do sul. Já O Paraguai acostumado a golpes, disputaria a região do Chaco com a Bolívia. Seus governantes foram atormentados pela quebra do orgulho paraguaio com a humilhação proveniente de um tratado com os bolivianos. A tensão não cessa, a guerra chega dopada de sangue. Mas, inacreditavelmente , o Paraguai venceria desta vez. Locais, regionais ou globais, as guerras do século XX iriam dar se numa escala muito mais vasta que qualquer coisa experimentada antes. Uma das que mais vitimou foi a Guerra do Chaco 1932-5; estando inserida na era do massacre inaugurada em 1914.

Para o cientista político francês Olivier Dabène as razões que estimularam estes países isolados e pobres ao conflito bélico residem principalmente em uma ordem histórica e econômica . Sob sua perspectiva, Paraguai e Bolívia abrigavam um sentimento nacionalista herdado das derrotas nas guerras. A guerra da Tríplice Aliança (1864-1870) foi desastrosa para o Paraguai e a guerra do Pacífico (1879-1886), por outro lado, fez com que a Bolívia perdesse o acesso ao mar, cuja recuperação se converteu, durante muito tempo, numa obsessão. Somavam-se ainda as demarcações fronteiriças mal delimitadas na grande planície do Chaco (600.000 Km²).

Tal período, 1870 e 1930, tangencia tempos de relativa prosperidade material, certa estabilidade uruguaia e quase sempre instabilidade paraguaia no campo político. As disputas hegemônicas paraguaias postas em jogo, mesmo entre partidários distintos nutria-se de ambições semelhantes. Em tese sua Constituição deveria privar formas ditatoriais, mas copiosos golpes foram deferidos. Mesmo Ayala, vitorioso na guerra contra a Bolívia sofreria um golpe em 1936, sob liderança do general Rafael Franco. Nem os “bons tempos” modificariam os quadros de pauperismo e a estrutura fundiária, mantinham-se os latifundiários. Acerca da Guerra do Chaco “ambos [Paraguai e Bolívia] os países saiam da guerra extremamente debilitados e sob ditaduras empenhadas em reconstruir a vida política nacional e em responder pela força à mobilização social, que, como nos demais países significava uma ameaça.” Por outro lado a década de 30 começa com ondas de medidas reformistas no Uruguai. Com intervenções de Estado no mercado de gado, a intensificação dos anseios por salário mínimo, pensões e direitos trabalhistas. Todavia, acordos oportunistas não mais dariam cabo diante de grupos sociais e políticos antagônicos. Tensões políticas se acirraram favorecidas pelas repercussões internas de 1929 (o Paraguai teve os efeitos da depressão limitados posto que sua população era amplamente camponesa) que acentuou a dependência dos estadunidenses. O golpe não tardaria, iniciando em 1933 a denominada Dictadura de Gabriel Terra. Todavia, permaneceriam os colorados no poder até 1973.

Fernando Teixeira


Bibliográfia:
DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra: Nova história da Guerra do Paraguai/ São Paulo: Companhia das Letras, 2002
ODDONE, Juan A. “A Formação do Uruguai Moderno”. In História da América Latina: de 1870 a 1930, volume V/ org. Leslie Bethell. Trad. Geraldo Gerson de Souza – I Ed, I reimpr. – São Paulo: Edusp; Brasília, 2008
DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra: Nova história da Guerra do Paraguai/ São Paulo: Companhia das Letras, 2002
SOUZA, Marcos Alves de. A cultura política do “batlismo” no Uruguai: 1903-1958/ São Paulo: Fapesp, 2003.
LEWIS, Paul H. O Paraguai da Guerra da Tríplice Aliança a Guerra do Chaco. In: História da América Latina: de 1870 a 1930, volume V/ org. Leslie Bethell. Trad. Geraldo Gerson de Souza – I Ed, I reimpr. – São Paulo: Edusp; Brasília, 2008.
HOBSBAWM, Eric. Era do extremos: O breve século XX 1914-1991: trad. Marcos Santarrita/ São Paulo: Companhia das Letras, 1995
DABÈNE, Olivier. América Latina no século XX/ trad. Maria Izabel Mallmann. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003

domingo, 7 de agosto de 2011

Relatos de viagens
Imagens do período descobrimentista

Como que numa interdependência cumplicista, viagem e relato podem ser vislumbrados como duas faces de uma mesma realidade. Quantas viagens se efetivaram por fundar-se em relatos fantasiosos e elucubrações cientificas e literárias e quantos relatos surgiram fantasiosos e impositivos em eloquentes colocações, matizados de literatura e cientificidade, a partir de uma viagem? Viagem e relato estão tão intrinsecamente imbricados um no outro que é difícil dissociá-los. Toda viagem gera um relato, ainda que do viajante para ele próprio num exercício mental, num psico-relatar, que pode vir a ser socializado a terceiros ou não, e todo relato possibilita uma viagem, senão física com deslocamento no tempo e no espaço, pelo menos num exercício mental que transpõem o leitor de sua situação no tempo e no espaço, para o contexto do relato.


“O que não é uma viagem? Por menos que se dê um sentido figurado a esse termo - e jamais pudemos deixar de fazê-lo – a viagem coincide com a vida, nem mais nem menos: o que é esta, além de uma passagem do nascimento à morte? O deslocamento no espaço é o indicio primeiro do mais óbvio, da mudança; ora, quem diz vida diz mudança. O relato também se alimenta da mudança: nesse sentido, viagem e relato implicam-se mutuamente. A viagem no espaço simboliza a passagem do tempo, o deslocamento físico o faz para a mudança interior: tudo é viagem, mas trata-se de um tudo sem identidade. A viagem transcende todas as categorias, incluindo a da mudança, do mesmo e do outro, pois desde a mais remota antiguidade são acumuladas viagens de descobrimento, explorações do desconhecido, e viagens de regresso, reaproximação do familiar: os argonautas são grandes viajantes, mas Ulisses também o é.Os relatos de viagens são tão antigos quanto as viagens ou mais. A primeira grande vaga de viagens modernas é a do fim do século XV e do século XVI: ora naquele momento, e por mais que isso se pareça paradoxal, os relatos precedem as viagens. Desde a alta Idade Média, relatos mais ou menos fantasistas gozam da simpatia do povo e mantem acesa a sua curiosidade.”.


Imagens do período descobrimentista um retrato da expanção ultramarina
As navegações que se faziam antes do domínio dos mares pelos europeus eram rudimentares e se fundavam no arrimar, sem nunca perder de vistas a terra firme, sob pena de sucumbir aos perigos dos oceanos. As viagens ultramarinas, que tem seus primórdioscronologicamente localizado,no final do século XV com o desenvolvimento das caravelas portuguesas, representaram uma grande mudança para a vida como um todo no continente europeu. A descoberta de novas terras e de novos povos foi motivo de fortuna para as nações empreendedoras dessas viagens, bem como de uma série de novas informações acerca de outros costumes e outras culturas bem diferentes dos da Europa.

As informações acerca dessas descobertas chegavam a Europa por meio de uma série de relatos de viagem que os viajantes faziam durante as expedições descobrimentistas/achistas. Muitas especulações prenunciavam a existência de culturas, terras e povos distintos, que estavam além-mar. No entanto, somente após a conquista do oceano atlântico e o domínio do cabo das tormentas, os mares e oceanos foram desbravados pelos europeus que rompiam a linha do horizonte geográfico e mental de todo um continente (o continente europeu a priori e de todo o mundo conhecido progressivamente).

O mundo desconhecido com toda a sua diversidade mexia com o imaginário do individuo europeu (tanto do viajante, como do europeu comum em seu cotidiano) e despertava seu interesse por qualquer relato acerca desse assunto, o que acabou fazendo dos relatos de viagens um grande sucesso na Europa. Havia um grande número de pessoas interessadas nesses textos, a fim de tomar conhecimento do que havia de fato fora da Europa e, por esta razão, as impressões dos viajantes eram difundidas entre seus leitores. Vale lembrar que o público desses textos eram pessoas interessadas em diversos aspectos: militares, religiosos, econômicos, artísticos,botânicos, científicos, ou mesmo por simples curiosidade. No entanto esse públiconão se configurava um grande grupo, visto que era, em geral, um material pouco acessível aos menos favorecidos financeiramente o que reduzia drasticamente esse grupo.


O primeiro encontro - Oscar Pereira da Silva

De todo modo, ao longo dos anos, a quantidade de relatos produzidosiam aumentando consideravelmente, versando sobre diferentes partes do mundo e sobre os mais variados assuntos. O que a principio tinha como proposta apenas o descrever do que era visto, no sentido de mostrar ao leitor o que fosse mais próximo da verdade sobre as localidades e os povos abordados passou com o tempo e o sucesso dos relatos, a ser uma nova vertente literária fazendo o gosto dos letrados e dos artistas que se apropriavam dos relatos e se municiavam deles para compor seus próprios relatos e obras, criando misturas literárias e ícones imagéticos que tinham como objetivo vender a imagem do novo mundo com toda a sua carga de exotismo. Nesse interim, inúmeros relatos ganham um tom de aventura bastante acentuado, pois pode serdesinteressante ao leitor menos interessado ler apenas descrições de questões específicas. Sendo assim, não são poucos os textos que contêm descrições surpreendentemente imagéticas e que dão grande importância á subjetividade, estando carregados das impressões e reações do autor e daqueles que estavam a sua volta, cabe ressaltar que o mundo novo é de tal modo impactante sobre os viajantes que muito dos relatos expressam exatamente, o conflito do novo sobre uma estrutura mental vigente, estabelecida a partir do imaginário europeu.

A função primária e básica de um relato de viagem é tornar os acontecimentos ao longo de uma viagem, acessível de algum modo aos que dela não puderam fazer parte e mesmo aos próprios viajantes que correm o risco de acabar por perder, mais do que já é comum ao ser humano perder em face dos apagamentos que o cérebro faz automaticamente. Haja vista que as expedições feitas entre a era das caravelas duravam meses, submetidas às mais variadas intempéries (pestes, fome, motins, insubordinações, naufrágios, estagnações à deriva por falta de ventos, tempestades, entre outras). Sendo tão longa a duração das expedições, os relatos faziam-se indispensáveis, ainda que se excetuem todas as informações de ordem náuticas, científicas etc. que se ia levantando e catalogando, o seriam indispensáveis por razões burocráticas, para satisfação aos financiadores dessas viagens que queriam saber o quanto antes o resultado de seu investimento. Assim os relatos de viagens funcionavam como uma escrituração de todo o ocorrido ao longo do caminho percorrido, onde era comum descrever os fatos, os povos, os lugares, as intempéries e tudo mais que parecesse interessante. Nesse contexto cultural do período da expansão marítima descobrimentistao foco estava nos lugares visitados, considerados “estranhos” ou “exóticos”.

Por trás desse massivo interesse pelo novo mundoencontra-se a cobiça dos colonizadores em relação às possíveis riquezas dessas terras, ou mesmo a vontade de tomá-las para si mesmo queà base da força e das violências. De todo modo, são as descrições sobre os “nativos” as que mais farão sucesso entre os europeus leitores dos relatos de viagem. Desse modo temos nos relatos de viagem, um texto bastante marcado pelas impressões pessoais do autor, pelo olhar eurocêntrico sobre o outro, por análises científicas e por descrições muito detalhadas no que tange as questões de geografia e até mesmo aos vestuários.

Interessado nessas informações está um público leitor restrito, porém de grande relevância na época por conta de seu prestigiado posicionamento social, consome os relatos em larga escala onde a função do relato de viagem é uma das mais pertinentes: a de formar uma identidade e uma relação de alteridade com os povos chamados “selvagens”. Sendo assim, podemos deduzir que os relatos de viagem gozava de certo “status”, ede certo grau de confiabilidade, pois as ideias ali veiculadas passaram a integrar o imaginário dos europeus que, os liame reproduziam aos iletrados e analfabetos, completando o alcance dos relatos.

Livro das Armadas. séc. XVI

Contudo os relatos são fontes, rastros, reminiscências que sinalizam sobre o que foi o encontro do mundo europeu com esse, denominado “mundo novo”.Noentanto a partir da perspectiva do europeudesbravador, com toda a sua carga subjetiva, com certos nuances de legitimação do investimento, feito para com o investidor, destinatário primeiro dos relatos. Sendo assim, considerar o que relatam os viajantes autores,como verdades é umfeitoque se dá por conta dos leitores a partir de sua relação com o próprio relato. E cabe ao leitor atual, sobremaneira ao historiador que busca estabelecer contato com esses relatos, saber se reportar a tais documentos cientes que tem toda uma carga identitária, contextualizada nestes distantes séculos de história do ocidente, formatando as percepções e leituras dos narradores dos relatos. Não se pode esquecer de forma alguma, que essas foram, as primeiras informações que os europeus tiveram acerca deterras epovosnão-europeus (excetuando-se as terras e povos adjacentes dooriente conhecido), tudo o que se tinha antes eram previsões cientificas que vislumbravam outras terras e povos e especulações de cunho religioso.

A curiosidade dos leitores europeus é um fator que muito certamente influenciou e muito contribuiu para a construção de estereótipos que em nada tinha a ver coma realidade dos povos comentados nos relatos, mas antes respondiam aos construtos simbólicos que compunham o imaginário europeu da época,de todo modo, essas características, essas subjetividades intrínsecas aos relatos interferem na análise, em função do tempo e do espaço do discurso ora posto, desafiando a capacidade de perscrutar do leitor,a capacidade do leitor de sondar os relatos em busca das respostas que julgar serem-los estes capazes de fornecê-los.

As informações que os relatos nos legaram, mesmo sendo passíveis de tantas ressalvas como acima foi postulado, denotam quanto de nosso universo cosmovisual é ainda radicado em muitos estereótipos que foram forjados no imaginário humano, nos séculos das expansões ultramarítimas e que se perpetraram no tempo sendo herdadas pelos indivíduos coevos.

Dança dos Tapuias - Albert Eckhout
Relatos inaugurais como: a carta de Pero Vaz de Caminha, a certidão de Valentim, a relação do piloto anônimo desenharam concepções que vigem e regem (ainda que muitas delas no subconsciente) até os dias atuais.

Quando abordamos a indigenia americana, somos logo reportados à cordialidade e mansidão, à preguiça e inaptidão para o trabalho, ao canibalismo e bestialidade indígena, como se estes fossem denominadores inquestionáveis da identidade indígena, o que não é, mas que, no entanto prevalecem no imaginário atual referenciandoas mais imediatas questões sobre o índio.

A escravidão dos negros da terra e a posteriori dos africanos trazidos para o continente é ainda hoje quesito de análises preconcebidas, culturalmente arraigadas nas práxis, que geram um preconceito velado e uma discriminação sutil, nos hábitos dos contemporâneos no Brasil. As prescrições medievais de comportamento sexual, eurocentralizadas/eurocentralizantes que matizaram os indígenas em sua cultura nativa de devassos, luxuriosos, descaídos seres abandonados pelo Deus do cristianismo, que legou aos europeus a boa nova da salvação e ao continente Ameríndio a perversão e a decadência máxima, reservando ao europeu o dever de submeter os bárbaros, selvagens ameríndios à catequese e à salvação cristã, mesmo sob pena de total destruição de si e de sua cultural.

Joaquim Teles - Kiko di Faria


Referencias Bibliográficas:

A BÌBLIA DE JERUSALÉM: nova edição, revista. 9. ed. São Paulo: Paulus, 2000.
ALENCASTRO, Luiz Felipe de. ‘Índios, os escravos da terra’. In O trato dos viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo, Companhia das Letras, 2006. pp. 117 - 154.
COSTA, Emília Viotti. ‘Primeiros Povoadores do Brasil: o problema dos degredados’. In: Textos de História, VOL VI,Nùmeros1& 2. Brasilia, UnB, 1998. pp. 77-100.
GINZBURG, Carlo. “Sinais: raízes de um paradigma indiciário” IN Mitos, emblemas, sinais: Morfologia e História. 1ª reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
Le voyage et son récit. In: TODOROV.T. lesmorales de l’histoire.Paris : Grasset. 1991.p.95-108. Tradução de Lea Mara ValeziEstauti In. Rev. Let. São Paulo, 39; 13-24. 1999.
PIERONI Geraldo. ‘No purgatório mas com o olhar no paraíso. O degredo inquisitorial para o Brasil Colônia’. In Textos de História, VOL VI, Números 1& 2. . Brasilia, UnB, 1998. pp.115-141.
RAMINELLI, Ronald. ‘ A natureza dos ameríndios’. Textos de História,VOLIII,Número 2. Brasília, UnB, 1995. pp.101-124.
RAMINELLI, Ronald. ‘ Eva Tupinambá’. In: PRIORI, Mary Del (org). História das mulheres no Brasil. São Paulo, Contexto / Unesp, 2001. pp.11 - 44.

sábado, 6 de agosto de 2011

Rede Social no Bomba - H

Agora temos o nosso twitter. Essa ferramenta, comum entre os internautas, é uma novidade para os leitores do Bomba – H. Embora pouco conhecido, por nós administradores do blog, devemos nos adaptar a essa “nova” rede social, pois trata-se de um micro-blog famoso e usual no mundo dos nets.











Não somos políticos, portanto não vamos prometer nada, mas muitas outras novidades ainda surgirão nesse semestre de 2011. Aderirmos o twitter para aumenta o número de internautas que poderão ter contato com este blog. Além dele também possuímos nossa comunidade no Orkut que até o momento, desta postagem, possui cinco membros... Devo admitir que não tenno dado tamanha importância para essas novas opções que a internet oferece, mas como diz o ditado: “nunca é tarde para começar.” Por isso vamos aproveitar esse começo de semestre para nos adaptarmos a essas redes sociais e oferecê-las aos nossos seguidores.