quarta-feira, 26 de setembro de 2012

VIII Semana de História



  • História do Brasil Fronteiras e Perspectivas
  • X Arte de Cantar História 

De 1 a 5 de Outubro.
Auditório da Prefeitura - 20:00 Horas. 

Idéias em movimento - Teorias para Reforma


ALONSO, Angela. Idéias em movimento – A geração 1870 na crise do Brasil – Império. São Paulo: Paz e Terra, 2002. pp. 245 - 262


O texto a ser analisado é Teorias para Reforma, presente no livro Idéias em Movimento – A geração 1870 na crise do Brasil - Império, da socióloga Ângela Maria Alonso. Além dessa formação, Alonso também alcançou o doutorado pela Universidade de São Paulo (USP), mesma instituição pela qual, atualmente, ela ministra suas aulas. Fora do país Alonso buscou o pós-doutorado na Yale University e, também, esteve envolvida em outras pesquisas acadêmicas.

O capítulo sobre-citado, e pela qual está produção fica responsável em analisar, retrata princípios intelectuais, em que alguns casos essas regras (ou princípios) estavam inseridas em uma cientificidade própria da influencia positivista da época. Eram intelectuais que lançavam seus olhares para as condições do Brasil e que de certa forma estavam envolvidos em um contexto com mais de um grupo e, portanto, mais de uma consciência a ser admitida e projetada.

Em resposta a agenda política brasileira, o movimento intelectual da geração 1870 produziu programas completos de reforma modernizadores, que estão tanto na conclusão de seus livros de doutrina, como em circulares eleitorais e manifestos políticos que lançaram em meados dos anos 1880. (p. 246)

Há grupos tais como positivistas abolicionistas, novos liberais, federalistas científicos, liberais republicanos em que entorno das discussões que estes se envolviam uma que se destaca seria a passagem do Brasil que deixava de se tornar império e dava seus primeiros passos rumo a republica. Todas as mudanças, desencadeadas por essa ruptura de governo, passavam-se por uma consciência de projeto, mas que não deveria sofrer com radiais mudanças.  Ou seja, o contexto político envolvendo o fim do Império junto ao surgimento do ideal republicano, o que mais tarde, tornaria o Brasil uma republica, passa a ser estimulado não por uma apocalíptica revolução – “Todos os grupos exorcizaram a revolução” (p.259) – nas  estruturas políticas, sociais e econômicas do país, mas pela manutenção de uma estrutura já vinda da monarquia, mas que agora visava projetos adequados que aproximassem o Brasil da modernidade e o capitalismo, entendido como um prolongamento gradual da Republica e federalismo que estaria ocorrendo. Ou nas palavras de Alonso: “O liberalismo econômico reza que o capitalismo viria a seu tempo antes, era preciso limpar o terreno para seu desenvolvimento.” (p. 253)

No entanto, vale ressaltar que embora alguns setores políticos estivessem envolvidos com uma consciência e influencia externa, haveria de se pensar as condições e especificidades que envolvia as novas transformações ocorridas no país. Embora, pudesse supor que havia um discurso teórico diferente da prática – ou melhor, que as “idéias estariam fora do lugar”, nota-se haver em cada circunstancia, e no Brasil definitivamente não seria diferente, especialidades que desencadeavam em realidades nem tanto revolucionárias.

Uma diferença que pode ser notada é a questão do escravo nessa nova situação, republicana. Ora, haveria grupos tais como os abolicionistas que desejavam o fim absoluto e sem indenização da escravatura, enquanto outros, liberais republicanos, desejavam o processo gradual do fim dos escravos.  Tratavam tal questão, não como uma mudança social ou política, mas econômica.  “O fim da escravidão era problema do tempo. Bom seria chegar a abolição sem transtornar a propriedade agrícola, sem ofender aos direitos e interesses envolvidos. A reforma política era independente da reforma da economia.” (p. 253)

Há outros interesses intrínsecos ao fim da escravidão. Vontades que não era apenas no fim do trabalho escravo, propriamente dito, mas também seria uma forma de trazer o progresso ao Brasil, recebendo assim imigrantes europeus em troca de escravos, provocando-se a política de branqueamento. A chegada desses novos imigrantes seria útil para outros motivos políticos. As regiões do sudeste e sul aumentavam sua população o que, dessa forma, “poderiam equilibrar a balança de poder político até então pendendo para o lado nortista.” (p. 248) O projeto proposto, visava mudar o poder do Senado para a câmara dos deputados o que, desencadearia, em um federalismo – em que cada província, dependendo do número de sua população, poderia emitir um maior número de políticos para representação da região. O que pode ser analisado nessa trama de interesses políticos é um constante setor político que, embora houvesse pensamento e propostas mudanças na representação administrativa, ainda sim estariam controlando o desenrolar do Brasil na republica. Esse desenrolar estava processualmente relacionado a motivos econômicos que se exemplifica com outras questões tal como a escravidão.

Ao tratar do tema econômico, outra característica pensada pelos intelectuais na época de crise Brasil Império, seria o papel mínimo do estado. Tratava-se, portanto, de um pensamento de liberalismo econômico vindo de uma consciência e influencia externa.

Liberais republicanos, federalistas científicos e novos liberais gostariam de ver ampliado o escopo da livre concorrência, da liberdade bancaria, da liberdade de comércio e da indústria... O Estado não deveria ser um agente econômico, um investidor. Deveria prover apenas a infra-estrutura de comunicações e transporte (telégrafos, correio e estradas de ferro), as condições para a expansão de uma economia capitalista. (p. 247)

Sabe-se que, por algum período de tempo – seja no império e republica, o Brasil teve como um dos principais produtos o café. Admitindo que o produto fosse exportado em demasia os cafeicultores, mais tarde, junto ao estado iriam tomar medidas de proteção a esse produto. Tais medidas se deram por meio da desvalorização cambial o que fez o preço da moeda nacional cair em detrimento a moeda estrangeira. Tal medida fez com que o café fosse mais comprado por estrangeiro, pois se antes a moeda se igualava ao dinheiro estrangeiro, agora desvalorizado o café custaria menos. Essa medida observa-se haver uma preocupação da elite em manter sua renda pomposa como seria de seu desejo. No entanto, uma desvalorização cambial iria prejudicar a maioria da sociedade brasileira, pois o nosso país mais importava produtos do que exportava. Conforme a moeda brasileira fica mais fraca em relação a estrangeira a compra de produtos importados ficariam mais caros, mas não para os cafeicultores que iriam compensar isso com suas vendas. No entanto, os dinheiros da compra dessas sacas de café ficariam apenas nas mãos dos cafeicultores, trata-se, portanto, de mais uma medida que demonstra haver uma elite interessada em se manter no lucro, enquanto a população se via a mercê de interesse dos donos do poder.

O que diferencia o texto de Ângela Alonso para um dos clássicos da historiografia, que intitulou sua obra como Donos do Poder,Raymundo Faoro estaria nos objetivos que cada um dos autores visavam compreender.  Faoro com jurista que inclusive esteve como presidente das Organizações dos Advogados do Brasil (OAB), utiliza-se de sua linguagem e análise de juristas para compreender a situação e formação do Brasil na republica. Enquanto que Alonso observa nesse capítulo as propostas políticas, pouco revolucionária, que visava aos poucos construir uma nova realidade para o Brasil. Nas palavras de Alonso, conclui-se: “O diagnóstico da conjuntura como crise de decadência desembocou em duas conclusões: a inépcia da elite política imperial para levar avante as reformas e a inoperância do parlamente em processá-las” (p. 258). Diante dessas fragilidades administravas os contestadores, visavam-se lançar a esses novos postos políticos, mas suas posições deveriam se debruçar as “mudanças negociadas e paulatinas, sem rupturas drásticas, sem quebra da ordem. Seus projetos têm por ponto de fuga a transformação controlada da sociedade e do sistema político, através das instituições e da lei.” (p. 259)



Além disso, os projetos, desses intelectuais e contestadores, embora estivessem em muitos sentidos questionando os saquaremas – grupo político do segundo império, esses questionamentos se davam a partir de algumas medidas tomadas por essa classe conservadora como: conflitos provinciais e até a Guerra do Paraguai. Mesmo, podendo-se admitir que a passagem do Brasil império para o Brasil republica fosse desencadeado por novos pensamentos que surgiram no contexto do império, provocando numa possível traição contra o absolutismo – ou seja, a classe que antes pensava uma coisa por perder o poder, passa a pensar e a questionar outros fatores, dessa forma surgiu o partido republicano. No entanto, a ordem e a tradição mantida pelos saquaremas durante longo tempo que estiveram no poder, ainda continuava sendo admitida e vangloriada, pois “nisso estavam estreitamente próximos do realismo conservador da elite imperial. O movimento intelectual da geração 1870 não foi nem popular nem revolucionário. Foi reformista.” (p.261) Ou seja, as novas mudanças ainda passavam pelo crivo e pelas intenções de outras elites que em muitos aspectos se assemelhava a elite questionada do segundo império.  



sexta-feira, 14 de setembro de 2012

As idéias fora do lugar
Livro Ao Vencedor as batatas

Schwarz, Roberto- “Ao vencedor as batatas”- I.  As idéias fora do lugar. São Paulo: Duas Cidades, 1992, 4ª Ed.

Na apresentação do capítulo I. “As idéias fora do lugar” do livro Ao  Vencedor as batatas, publicado em 1977, Roberto Schwarz sustenta que “toda ciência tem os princípios que são originados dentro do seu próprio sistema, e um dos princípios da economia política seria o trabalho livre”. Na propaganda de um panfleto liberal de Machado de Assis colocava o Brasil para fora do sistema da ciência, pois aqui o que predominava era a escravidão, considerada um fato descortês e execrável.“Estávamos aquém da realidade a que esta se refere; éramos antes um fato moral, impolítico e abominável”[1].


Crítico da literatura de Machado de Assis, Roberto Schwarz afirma que o Brasil respira as idéias européias, mas em sentindo totalmente impróprio, e dessa forma seriam problema para a literatura. Segundo Schwarz as idéias por esse prisma estariam fora do lugar, baseado na idéia de Marx que a estrutura determina a infra-estrutura, desse modo o social daria forma à literatura, a grande contradição observada por Machado de Assis no Brasil seria a estrutura totalmente atrasada e colonial, e a superestrutura avançada e liberal. Ainda sob o ponto de vista de Machado o escravismo enquanto persistisse no Brasil, o parlamento seria ao estilo inglês, e Schwarz observava ainda que as idéias que aqui circulavam eram baseadas nos movimentos existentes em Paris, e que estariam fora de centro, se relacionadas ao contexto europeu.

Schwarz encontra uma explicação histórica para afirmar no seu ensaio de que as idéias estariam fora do lugar, isso ocorria pela dependência econômica do Brasil ser baseada no escravagismo e a supremacia intelectual da Europa que era revolucionada pelo capital. Enfim, as idéias liberais não teriam meios para serem praticadas no Brasil, mas não poderiam ser totalmente rejeitadas[2]. Era um discurso incompatível com a realidade escravagista e clientelista existente no País.

O Brasil é um país agrário e independente, e toda a produção era proveniente do trabalho escravo de um lado e de outro a dependência do mercado externo. Independência era um feito recente no país e em nome dos ideais de liberdade franceses, ingleses e americanos, que já faziam parte da identidade nacional, segundo Emilia Viotti  esse conjunto ideológico existente no Brasil iria chocar-se contra a escravidão e seus defensores e tendo que conviver com eles.[3]

A não modernização da mão-de-obra na agricultura no Brasil, segundo Fernando Henrique Cardoso, era de que o escravo não estaria inserido no mercado de trabalho especializado, que apenas iria espichar o dia de trabalho do mesmo, para discipliná-lo, contrário do que era moderno, pois era fundada na violência e na disciplina militar, e a produção escravista era dependente da autoridade mais que da eficácia.[4]

Segundo Schwarz a colonização gerou três classes de população, baseada no monopólio da terra, o latifundiário, o escravo e o homem livre, que na verdade era totalmente dependente, a relação existente entre as duas primeiras classes era clara, porém a classe dos terceiros que era interessante, nem donos de terra e nem proletários e seu acesso à vida e bens matérias era totalmente dependente do favor, direto ou indireto de alguém maior que ele.[5]

Havia de fato uma discrepância entre as idéias liberais, a escravidão e a prática do favor não foi obstáculo para incorporação desses ideais pela elite intelectual e política do Brasil, tendo em vista que a geração de intelectuais se formou em universidades européias, equiparando valores e comportamentos.

“Adotadas as idéias e razões européias, elas podiam servir e muitas vezes serviam de justificação, nominalmente “objetiva”, para o momento de arbítrio que é da natureza do favor “[6]


Schwarz argumenta que o escravagismo desmente o liberalismo e ainda mais o favor seria tão incompatível quanto o mesmo, há um deslocamento e uma distorção quanto à submissão das idéias liberais no Brasil, dando origem a um padrão particular, mas não se ajustando completamente ao local. Para ele ainda a distorção desses conceitos estrangeiros são inevitáveis, pois é o único modo de situá-los em contexto local usando os termos importado. Para Ângela Alonso[7], as idéias não estariam fora do lugar, apenas em movimento, pois muitas são as disputas que permeiam o pensamento político no Brasil, e suas mais diversas interpretações, seja na prioridade do Estado ou da sociedade. Alonso ainda compara o discurso de Sérgio Buarque de Holanda seria o oposto do pensamento de Faoro, que o patriarcalismo surge como herança rural e o Estado patrimonial lentamente são fundados e aprisionados nos círculos familiares, ou seja, o público permanece entranhado no setor privado.


Denise Silva



[1] SCHWARZ, Roberto- Ao Vencedor As Batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro, São Paulo: Duas Cidades, 1992, 4ª Ed.As idéias fora do lugar- Pg.1
[2] SCHWARZ, Roberto-  Ao Vencedor As Batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro, São Paulo: Duas Cidades, 1992, 4ª Ed.As idéias fora do lugar-. Pg.12
[3] Ibdem pg 3
[4] Ibdem pg 3
[5] Ibdem pg 5
[6] Ibdem pg 6
[7] Alonso, Angela: Idéias em movimento: a geração 1870 na crise do Brasil- Império_ São Paulo : Paz e Terra, 2002. 3-O sentido da contestação: A reforma da Ordem Saquarema- pg 245


domingo, 12 de agosto de 2012

Comentário sobre as Olimpíadas.


Antes de começar o texto, proposto pelo título da postagem, gostaria de afirmar que também sou a favor da critica que é imposta ao Brasil – que prefere sediar eventos esportivos a lhe dar com reais necessidades e problemas que afetam a saúde e educação brasileira. No entanto, aproveitando o evento olímpico que se encerrou em Londres, gostaria de expor as dificuldades que esportistas ou futuros, encontram a praticar modalidades olímpicas e o quanto o nosso país se mostra amador em relação a falta de incentivo aos atletas. Lembro também que o setor esportivo, embora não deva ser visto como o principal enfoque de investimento, pois há outros, este também tem seu grau de importância para tornar o país justo e desenvolvido. O esporte carrega consigo o desejo do atleta em se superar, mas também a educação e a prevenção da saúde social.


  Portanto retomando ao objetivo deste texto, gostaria de comentar sobre algumas modalidades olímpicas no qual o Brasil participou em Londres e daqui a quatro anos estará sediando. Há certos esportes praticados por brasileiros nas Olimpíadas em que se percebe a total falta de investimento, seja de setores privados ou públicos. Aliás, o que se tem visto em algumas charmosas publicidades nesse momento olímpico, são empresas que se dizem apoiadoras dos esportistas nacionais, mas apenas investem em atletas já considerados favoritos e bem ranqueados mundialmente.

Tudo bem. Nada contra ao investimento que é feito a esses atletas, no entanto concordo – para fugir da temida hipocrisia – que ao investir no esporte deve-se creditar o apoio a todos os ramos do esporte brasileiro, fazer valendo o seu discurso. E mais, o esporte, tal como a educação, não é um investimento que deve ser feito em curto prazo, pois, como todos devem saber, além do treino ser essencial o atleta deve desenvolver algo que já é inerente a ele, ou seja, o talento. Não se descobre um grande boxeador, tenista, ginasta, velocista ou nadador da noite pro dia, mas a partir de uma constante busca e, portanto, constante investimento. Ora, quando se investe, como no mais extremo dos exemplos possíveis, na China os atletas passam a conviver com uma cobrança que é aceitável tanto pela sociedade quanto uma cobrança que se apresenta-se em resultados concretos – vinda em medalhas de ouro, para ser mais preciso. Não acho que o Brasil deva seguir esse mesmo exemplo, a cultura e personalidade social é outra, completamente diferente e a outros melhores exemplos a ser seguido. Mas, sim acho necessário para um país com dimensão como o nosso e que logo estará recebendo as Olimpíadas, se tornar uma potencia do esporte mundial.

 Em alguns esportes se observa a capacidade que o Brasil tem de se tornar, de fato, um grande país no esporte mundial e não apenas no futebol e vôlei. Indo a exemplos. Na ginástica fica claro que o Brasil poderia alcançar melhores resultados a partir de um maior inventivo, embora, os atletas dessa modalidades pareçam amarelões – acho que nesse esporte também não pode haver cobrança. Outros esportes que poderíamos citar, sem desconfiança, seria o judô, natação, boxe e atletismo. Em todos esses esportes o Brasil já teve ou ainda tem grandes nomes e atletas que poderiam influenciar tantos outros.

Em fim, gostaria também de aproveitar nesta postagem e lembrar outras modalidades que diferente dos esportes sobre-citados, o Brasil apresenta-se uma boa estrutura e que por sua vez a cobrança é feita ou deveria ser feita. No futebol “masculino” há uma explicação bem clara do motivo pelo qual ele é tão cobrado nas Olimpíadas... Diga-se de passagem, uma cobrança merecida, pois os jogadores que estão em Londres e buscam pela inédita medalha de ouro, tem totais condições (altos salários e estrutura) para se garantir como favoritos e colocarem na pratica  essa condição. Utilizei aspas no gênero masculino, pois no caso do futebol feminino a falta de investimento passa a ser quase calamidade, se resume em termos a melhor jogadora do mundo, mas temos os piores dirigentes do mundo.  Outros esportes que deveriam ser mais cobrados, mas que não é tanto, seria o vôlei e o basquete. Nos dois casos, observa-se uma tradição que deve ser carregada com os jogadores e que os atletas que os praticam também possuem no Brasil ou lá fora condições para se colocarem bem em suas práticas esportivas.

Esta postagem mostra também o quanto o Brasil parece está sempre mais forte em esportes coletivos do que em individuais é um caráter nosso, mas que pode ser melhorado se for investido e posteriormente cobrado.  

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Somos Políticos e Eleitores

Todos os dias, com profundidade ou superficialmente refletimos sobre a situação política de nosso município. Quando reclamamos, da fila no banco, quando reclamamos da precariedade do atendimento à saúde, da ineficiência da educação disponibilizada, quando falamos da já naturalizada e tão familiar corrupção... Sempre estamos refletindo sobre o modo com que a política atinge nossa vida prática.

Não é preciso ser grande conhecedor dos modos com que opera a política e os políticos, para se colocar a dar a sua opinião, a posicionar sobre isso ou aquilo. A explicação para isso o filósofo já nos oferecia há alguns séculos antes de Cristo, dizendo que o homem é (um ser cívico, naturalmente dado á política). Somos assim, políticos, por aptidão natural, a política se inscreve em tudo que fazemos, inclusive quando tentamos nos afastar das querelas político-partidárias e assim, tão altivos batemos no peito e dizemos: “Não sou político, graças a Deus! Eu detesto política!”.

Ora, não há como negar, Aristóteles tinha alguma razão!O homem é, por natureza, “um animal social e político” (zoon politikon). “Aquele que não precisa dos outros homens, ou não pode resolver-se a ficar com eles, ou é um deus, ou é um bruto (selvagem)”. (Cremonese. 2008.p 130-131)”.

O homem tem a política inscrita em si e ela se traduz em suas ações, norteia e orienta seus anseio, sonhos, e desejos, de modo organizado, em partido, em religião, em artes, etc. em tudo administramos o mundo para dar conta de responder as questões que a vida nos oferece. Desde a questão simples de como colocar pão à mesa? Como arranjar um emprego, qual é a melhor opção para isso ou aquilo? Até questões mais complexas como, quem é o melhor candidato? Como solucionar o problema da educação? Como melhorar a saúde? Etc. Quando se vive em sociedade é ainda mais patente essa força do viés político na vida da pessoa. Assim é muito difícil ao individuo escapar a essa dimensão de sua vida.

Este ano, mais especificamente nestes dois meses (agosto e setembro) as pessoas ver-se-ão enredadas em querelas políticas, seja por vontade própria ou pela imposição dos aparatos eleitorais sempre a veicular suas mensagens, no afã de persuadir de algum modo o eleitor. Desde um som renitente, a uma visita inusitada em horários inoportunos, até programas midiáticos de alta técnica em horários específicos nos meios de comunicação. Por todos os lados e de todos os modos a política no seu sentido partidário, estará imperante a tocar o cidadão oportuna e importunamente. Trata se de ano Eleitoral e a Eleição é mais uma dimensão do universo político.

O homem não é só político é também eleitor. E estas dimensões se imbricam uma na outra. Se por um lado o ser político parece mesmo ser inerente à condição humana, por outro o ser eleitor, não. O ser eleitor depende da filiação eleitoral ao cadastro de eleitores, onde te facultam um título eleitoral, depende da obrigatoriedade do voto, que no Brasil é regente. Então o ser eleitor é condicionado, pode o individuo ser um eleitor em potencial, mas essa dimensão só se realiza sob certas condições.

No período eleitoral, ou seja, nos trimestre que compreende o tempo da eleição, tempo de registrar candidaturas, preparar materiais e propostas e veicula-las para o público, a política se efetiva como prática, com ação comum, visível e irrefutavelmente contagiante. Contagia-nos positivamente e negativamente, dependendo de cada caso e contexto. Mas onde e como anda a nossa consciência politica? Como ser politico e eleitor?

No Brasil nossa dimensão política é negligenciada, preferimos o epiteto de que “política e religião não se discute!” ao trabalho do desenvolvimento intelectual, que permite-nos desenvolver capacidade para analisar e compreender os meandros políticos e partidários que constituem o labor eleitoral.

Estamos em pleno processo eleitoral, e como temos participado desse momento? No sistema de governos que temos em nosso país, que se pretende democrático e de fato temos a melhor democracia que o capital nos permite. O voto é obrigatório, ou seja, o individuo é eleitor por imposição sistêmica. Mas como encaramos isso e como vivenciamos essa realidade?

Votamos, justificamos, participamos... Direta ou indiretamente nossa ação ou inação incide sobre os resultados do processo eleitoral. Mas o comprometimento com que cada um abraça ou refuta sua condição política e eleitoral é o responsável por nossas questões cotidianas e também pelas possibilidades que temos de conseguir responder ou não, as questão básicas da sobrevivência, da vida como um todo.

Hoje em cada município brasileiro, grupos de políticos se apresentam sobre a bandeira partidária, das mais variadas, com propostas e soluções para problemas que não raras vezes são crônicos, perduram desde os dias mais recuados da vida dos municípios. Problemas, como, a falta de emprego, o pouco desenvolvimento municipal, a incapacidade do município de solucionar problemas que agridem e dificulta a vida, como seca, fome, moradia, saúde, educação, segurança, violência etc. Por outro lado está o público, a massa de eleitores, que se posiciona no afã de decidir qual das vozes lhe fala com mais agradabilidade, qual das vozes lhe oferece a melhor proposta e a melhor oportunidade.

Nesse cenário, é complexa a rede de relações que se estabelece. De partido a partido, de liderança a liderança, de bairro a bairro, de liderança a indivíduo, de grupo a grupo. Em cada um desses espaços as relações acontecem de um modo peculiar. Mas todos estão enredados pelo momento eleitoral e muitas vezes perde-se de vista a dimensão política, reduzindo o momento a barganhas e negociatas, que mui pobremente consegue responder a questões momentâneas. Deixando lesões profundas na vida das sociedades, aumentando as diferenças, ressaltando injustiças e promovendo a manutenção de um sistema pernicioso, que só pode ser superado, quando o eleitor for norteado pelo seu ser político. Mas para isso cada eleitor precisaria assumir como sua a tarefa de desenvolver-se como ser político, alimentar a sua dimensão política, nutrindo seu ser político e permitindo que  ele aflore e se mostre, pois assim independente do grau de envolvimento partidário cada individuo estaria capaz de dar eficiência ao seu ser eleitor, por que sua condição básica o ser político, não seria um faminto desfigurado, analfabeto e desnudo, mas sim um bem nutrido ser capaz de ajudar o ser eleitor a cumprir do melhor modo sua função eleitoral.

Como transformar o momento eleitoral num momento de edificação da sociedade em busca de liberdade e bem estar de seus membros e superar essa condição deplorável de feira de interesses particulares e escusos onde a igualdade de cidadania, não existe e se a política é praticada por iguais, é sem dúvida por uma igualdade que faz os agentes políticos aparecerem a todos como algozes da sociedade e não como líderes legítimos que representam e norteiam a sociedade para um caminho de superação, garantindo a cada passo bem estar aos seus membros em toda a sua diversidade.

A teoria do Estado em Hobbes é a seguinte: quando os homens primitivos vivem no estado natural, como animais, eles se jogam uns contra os outros pelo desejo de poder, de riquezas, de propriedades. No estado de natureza existe insegurança; não há lei ou norma, cada um faz o que bem entende. No estado natural o homem goza de liberdade total, tendo todos os direitos e nenhum dever. Sendo, porém, sua natureza egoísta, cada um busca satisfazer os seus próprios instintos, sem nenhuma consideração pelos outros. Segue-se uma luta de uns contra outros, na qual o homem se porta em relação ao outro como um lobo. (Cremonese. 2008. p.130-131).

Ora, o que se vê no ambiente político nacional é um regresso ao estado natural, haja vista que a legislação é ineficiente para conter a fúria dos agentes políticos que as atropelam e burlam, de modo cada dia, mais grotescos e desavergonhados. Sem moralismos ou ressentimentos, mas se há razão no que Dijalma Cremonese argumenta, fica evidente que caminhamos para um estado primitivo onde o homem é o lobo de si mesmo. E esse primitivismo de estado engendra em si o agente politico e o eleitor, pois ambos se posicionam como corruptos e corruptores, corrompem o projeto de uma sociedade livre e democrática, onde cada indivíduo exerce suas faculdades em prol do coletivo, compreendendo sua dimensão individual como parte do coletivo, não em detrimento deste.


Joaquim Teles - Kiko di Faria


Referência 
CREMONESE, Dejalma. Teoria política – Ijuí: Ed. Unijuí, 2008. – 220 p. – (Coleção educação à distância. Série livro-texto).